Quando a inteligência artificial vira instrumento de violência: quem educa, quem protege e quem responde?

Esses dias, meu filho chegou em casa contando sobre uma situação que aconteceu na escola. Um aluno teria usado uma fotografia real de outra pessoa para criar, com inteligência artificial, uma imagem de nudez e depois divulgado esse conteúdo para o grupo de amigos. A escola tomou uma medida disciplinar. E, como mãe e educadora parental, uma pergunta ficou na minha cabeça: E depois? O que os outros adolescentes aprenderam com essa situação? Eles conversaram sobre o que aconteceu? Entenderam por que aquilo é tão grave? Sabem que uma imagem criada por inteligência artificial pode causar consequências reais na vida de uma pessoa? Sabem que produzir, compartilhar ou divulgar determinados conteúdos pode trazer consequências jurídicas? E, principalmente: sabem o que fazer se receberem uma imagem assim? Foi aí que pensei que talvez essa conversa não pudesse ficar restrita àquele aluno, àquela turma ou àquela escola. Porque o problema é muito maior. “Mas é só uma imagem criada por IA…” Talvez essa seja justamente uma das primeiras conversas que precisamos ter com nossos adolescentes. Uma imagem pode ser falsa. Mas a violência e as consequências podem ser muito reais. Imagine descobrir que alguém pegou uma fotografia sua uma foto que você postou, uma foto tirada por um amigo, uma foto que estava em algum lugar da internet e usou uma ferramenta de inteligência artificial para criar uma imagem sua nua. Agora imagine essa imagem circulando entre pessoas que você conhece. Na escola. No grupo de WhatsApp. No Instagram. Entre amigos. Talvez você saiba que aquela imagem é falsa. Mas será que todo mundo que a recebe vai saber? E mesmo sabendo, será que isso impede o constrangimento, a vergonha, os comentários, os olhares e o sofrimento? É por isso que precisamos tomar cuidado quando usamos palavras como “brincadeira”, “zoação” ou “pegadinha”. Nem tudo que é feito por adolescentes pode ser tratado como uma brincadeira de adolescente. A inteligência artificial trouxe uma conversa nova para dentro da nossa casa Nós, pais, já estávamos tentando aprender a conversar sobre redes sociais, exposição, pornografia, cyberbullying, sexting, nudes e tantos outros desafios. Agora temos mais uma camada nessa conversa: a inteligência artificial. E ela chegou muito rápido. Talvez mais rápido do que muitos de nós conseguimos acompanhar. Hoje, existem ferramentas capazes de alterar imagens e produzir conteúdos extremamente realistas. Isso significa que aquela antiga orientação: “Não mande fotos íntimas.” continua importante, mas já não é suficiente. Precisamos conversar também sobre o que alguém pode fazer com uma fotografia que nem sequer era íntima. Precisamos ensinar nossos filhos que uma fotografia não é uma autorização para manipulação. Que compartilhar uma imagem de alguém sem consentimento pode causar danos. Que receber uma imagem não dá direito de encaminhá-la. E que o fato de algo estar “só no celular” não significa que não tenha consequências no mundo real. Mas e a parte jurídica? Essa talvez seja uma das conversas que mais precisamos ter com nossos adolescentes. Não para assustá-los. Não para dizer: “Olha o que pode acontecer com você!” Mas para ajudá-los a compreender que liberdade também significa responsabilidade. A legislação brasileira já possui mecanismos para lidar com situações envolvendo divulgação não autorizada de imagens íntimas. E houve uma mudança importante recentemente. Em 2026, a Lei nº 15.487 alterou o Estatuto da Criança e do Adolescente para incluir expressamente determinadas situações envolvendo a manipulação ou geração, inclusive por inteligência artificial, de representações de crianças e adolescentes em conteúdos de violência sexual. Ou seja: a discussão jurídica sobre imagens produzidas artificialmente não é uma preocupação distante. Ela já está acontecendo na nossa legislação. E aqui existe uma informação importante para nossos filhos entenderem: ser menor de idade não significa que “não dá nada”. Quando uma pessoa com menos de 18 anos pratica uma conduta que a legislação considera crime ou contravenção, estamos diante do que o ECA chama de ato infracional. O adolescente não responde criminalmente como um adulto, mas pode estar sujeito às medidas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente. Dependendo do caso, podem existir medidas como advertência, obrigação de reparar o dano, prestação de serviços à comunidade, liberdade assistida, semiliberdade ou internação. É claro que não significa que toda situação envolvendo uma imagem falsa terá automaticamente esse desfecho. A análise jurídica depende do que aconteceu, de quem está envolvido, da idade das pessoas, do conteúdo produzido, da forma como foi compartilhado e de várias outras circunstâncias. Mas essa complexidade não diminui a importância da conversa. Pelo contrário. Nossos filhos precisam saber que o ambiente digital também tem regras. “Eu só encaminhei…” Essa frase merece uma conversa especial. Imagine que um adolescente receba no grupo uma imagem íntima falsa de uma colega. Ele não criou. Não pediu. Não teve a ideia. Só recebeu. E encaminhou. “Foi só para os meus amigos.” Mas agora a imagem chegou a mais cinco pessoas. Que mandaram para outras. Que mandaram para outras. E, de repente, algo que poderia ter parado em uma tela passou a circular por toda a escola. Por isso, uma das orientações mais importantes que podemos dar é: Se você receber uma imagem íntima de alguém, não encaminhe. Não compartilhe. Não salve para mostrar depois. Não faça piada. Não entre na brincadeira. Procure um adulto de confiança e peça ajuda para saber como agir. Isso também é proteger. E se for meu filho que recebeu? Essa é uma pergunta que precisamos conseguir responder antes de o problema acontecer. Porque talvez seu filho um dia receba uma imagem dessas. E a primeira reação dele pode ser apagar. Ou encaminhar para um amigo. Ou ficar com medo de contar. Ou pensar: “Se eu contar, minha mãe vai pegar meu celular.” É aqui que a nossa relação com nossos filhos faz toda diferença. Precisamos construir uma casa onde eles saibam: “Se alguma coisa estranha, assustadora ou errada acontecer na internet, eu posso procurar meus pais.” Isso não significa que não haverá consequência. Significa que o medo da consequência não pode ser maior do que a segurança de pedir ajuda.
Quando criar filhos que pensam significa aprender a conviver com opiniões diferentes

Por aqui, uma das coisas que desejo profundamente para os meus filhos é que eles se tornem adultos independentes, resilientes e capazes de pensar por si mesmos. Quero que saibam fazer perguntas. Que não aceitem uma ideia simplesmente porque alguém disse que é assim. Que sejam capazes de discordar, argumentar, pesquisar, ouvir e rever suas próprias conclusões. Quero que aprendam a construir seus pensamentos a partir da ciência, da lógica, da história, dos conhecimentos que adquirimos ao longo da vida e, PRINCIPALMENTE, da Palavra de Deus. Não quero criar filhos que simplesmente sigam a grande massa. Nem que tomem decisões apenas porque “todo mundo está fazendo”. E também não quero que confundam liberdade com fazer aquilo que desejam a qualquer custo. Quero ajudá-los a desenvolver discernimento. Mas existe um lado dessa escolha que é muito mais difícil do que parece: quando ensinamos nossos filhos a pensar, precisamos estar preparados para quando eles pensarem diferente de nós. E isso, na prática, pode ser muito difícil. Quando os bons argumentos estão dos dois lados Hoje foi um desses dias por aqui. Estamos vivendo uma divergência de opiniões que já se estende por algumas semanas. E não é uma situação em que simplesmente existe um adulto dizendo algo sensato e um adolescente fazendo birra. O que torna tudo mais difícil é justamente o fato de existirem bons argumentos dos dois lados. Há fundamentos naquilo que eu penso. E há fundamentos naquilo que eles pensam. Existem pontos que consigo compreender no argumento deles, mesmo continuando discordando. E imagino que o mesmo aconteça do outro lado. Só que, quando uma divergência se prolonga, o desgaste emocional começa a aparecer. Vieram as discussões recorrentes. O mau humor. As alfinetadas. A raiva. A frustração. E aquela sensação de que ninguém estava conseguindo sair do lugar. Eu queria que eles compreendessem meu ponto. Eles queriam que eu compreendesse o deles. E, no meio disso tudo, uma coisa que começou como uma divergência de opiniões estava começando a afetar a nossa relação. Foi depois de mais uma discussão que percebi que estávamos tentando resolver algo apenas com a nossa própria força. E talvez aquele fosse justamente o momento de parar de tentar controlar o resultado. Quando Deus nos lembra que não precisamos resolver tudo sozinhos Eu orei. E entreguei aquela situação a Deus. Não como uma forma de fugir da responsabilidade de educar, mas justamente porque reconheço que existe uma parte dessa educação que não está sob o meu controle. A Bíblia nos ensina sobre a importância da obediência dos filhos aos pais e também traz uma orientação muito séria para nós, pais. Em Efésios 6, encontramos: “Filhos, obedeçam a seus pais no Senhor, pois isso é justo. ‘Honra teu pai e tua mãe’ este é o primeiro mandamento com promessa ‘para que tudo te corra bem e tenhas longa vida sobre a terra’.” E, logo depois, existe uma orientação igualmente importante aos pais: “Pais, não irritem seus filhos; antes criem-nos segundo a instrução e o conselho do Senhor.” Essas duas orientações precisam caminhar juntas. Não posso usar a responsabilidade dos meus filhos de obedecer como uma autorização para ignorar a responsabilidade que tenho de educá-los com amor, sabedoria e temor a Deus. E foi justamente isso que me confrontou. Porque, naquele momento, eu percebi que estávamos com dificuldade de viver as duas coisas. Eu desejava que houvesse respeito e obediência. Mas também desejava que a nossa relação não fosse tomada pela irritação, pela raiva e pela frustração. Então fiz uma oração muito simples: “Deus, nós sabemos o que a Tua Palavra nos orienta. Mas, neste momento, estamos com dificuldade de viver isso com alegria. Se precisamos que um coração seja transformado para que consigamos obedecer àquilo que o Senhor nos pede, intervenha. Dá-nos sabedoria para saber como lidar com essa situação.” Nem sempre precisamos vencer a discussão Depois disso, propus uma conversa. Não uma nova tentativa de convencer alguém de que eu estava certa. Uma conversa para colocar o problema diante de Deus. Sentamos. Falamos sobre o que estava acontecendo. Lemos a Palavra juntos. Oramos. E chegamos a uma conclusão que, naquele momento, foi muito mais importante do que decidir quem estava certo: nós já conhecemos a opinião uma da outra. Não precisávamos continuar tentando vencer aquela discussão todos os dias. Combinamos que, quando a frustração e a raiva surgissem novamente por causa daquela divergência, pararíamos para orar e pedir a Deus sabedoria para lidar com aquilo. Talvez o consenso ainda não tenha chegado. Mas algo mudou. As caras fechadas desapareceram. A disposição para provocar uma à outra diminuiu. O clima de batalha se desfez. E eu me lembrei de algo que às vezes esquecemos na parentalidade: nem todo conflito precisa ser imediatamente resolvido para que uma relação possa continuar saudável. Criar seres pensantes também nos transforma Eu quero filhos que saibam argumentar. Mas preciso aceitar que eles podem construir argumentos que eu não esperava. Quero filhos que questionem. Mas preciso estar disposta a ouvir algumas perguntas que me incomodam. Quero filhos que tenham autonomia. Mas autonomia não significa concordância comigo. Quero filhos resilientes. E resiliência também se aprende quando descobrimos que podemos atravessar uma divergência sem destruir uma relação. Talvez essa seja uma das partes mais difíceis de criar seres pensantes: eles não serão apenas capazes de pensar. Eles serão capazes de pensar diferente de nós. E isso exige de nós uma maturidade que vai muito além de ensinar conteúdos. Precisamos ensinar nossos filhos a argumentar, mas também a ouvir. A discordar, mas também a respeitar. A defender uma ideia, mas também a reconhecer quando podem estar errados. A buscar conhecimento, mas também a reconhecer os limites do próprio conhecimento. A ter convicções, mas sem transformar convicções em arrogância. E, principalmente, precisamos ensiná-los que nenhuma divergência de opinião é maior do que o valor de uma pessoa ou do que o vínculo que existe entre nós. O amor é maior do que a nossa necessidade de ter razão Talvez esse seja um dos maiores aprendizados que
Amigos na adolescência: influência, pertencimento e o desafio de deixar nossos filhos caminhar

Existe uma fase da parentalidade em que começamos a perceber que já não somos a principal referência social dos nossos filhos. Os amigos começam a ocupar mais espaço. As conversas mudam. Os interesses mudam. A opinião dos colegas parece ganhar um peso que, às vezes, nós, pais, não conseguimos compreender. E talvez uma das frases que mais assuste os pais nessa fase seja: “Meu filho está andando com más companhias.” A preocupação é legítima. Mas talvez precisemos fazer uma pergunta diferente: Como podemos proteger nossos filhos das más influências sem afastá-los de nós justamente quando eles mais precisam da nossa orientação? A adolescência é também uma fase de pertencimento A adolescência não é apenas uma fase de mudanças hormonais, físicas e cerebrais. É também um período em que o jovem começa a construir, de maneira mais consciente, sua identidade. Ele começa a perguntar, mesmo que não verbalize: Quem sou eu? Onde eu pertenço? Que tipo de pessoa quero ser? Como as outras pessoas me enxergam? Nesse processo, os pares (vulgo amigos), ganham uma importância especial. Isso não significa que os pais deixaram de ser importantes. Significa que o adolescente está ampliando seu mundo social e aprendendo a funcionar nele. E as amizades se tornam um verdadeiro laboratório de desenvolvimento. É nelas que ele aprende a negociar, discordar, confiar, estabelecer limites, lidar com rejeição, reparar conflitos, pedir ajuda e experimentar diferentes aspectos de sua identidade. Pesquisas sobre desenvolvimento adolescente mostram que a influência dos pares é uma força importante nessa fase e pode contribuir tanto para comportamentos adaptativos quanto para comportamentos problemáticos. Por isso, amizade não é apenas companhia. É também um ambiente de formação. “Mas meu filho sabe que isso é errado!” Essa frase aparece muitas vezes nas conversas entre pais de adolescentes. E ela nos leva a frase: conhecimento não é a mesma coisa que autorregulação. Um adolescente pode saber que determinada escolha é perigosa e, ainda assim, ter dificuldade para agir de acordo com esse conhecimento quando está emocionalmente envolvido, diante de uma recompensa imediata ou sob pressão dos amigos. A adolescência é marcada por mudanças na sensibilidade a recompensas e pela maturação progressiva das redes cerebrais envolvidas no controle cognitivo. E existe algo particularmente interessante quando falamos de amigos. Em um conhecido estudo experimental*, pesquisadores observaram que a presença de pares aumentou o comportamento de risco dos adolescentes em uma tarefa simulada de direção e esteve associada a maior ativação de regiões relacionadas ao processamento de recompensa. Isso nos ajuda a compreender uma situação muito comum: O adolescente pode estar sozinho e dizer: “Eu jamais faria isso.” Mas, diante dos amigos, a situação muda. Existe a necessidade de pertencer. Existe o medo de parecer diferente. Existe a recompensa social. Existe a emoção do momento. E, então, saber o que é certo pode não ser suficiente para conseguir fazer o que é certo. É por isso que precisamos ensinar nossos filhos não apenas o que escolher, mas como escolher quando estiverem sob pressão. Influência não significa necessariamente má influência Talvez essa seja uma das mudanças mais importantes na nossa maneira de olhar para as amizades dos nossos filhos. Quando pensamos em influência, normalmente pensamos: “Será que meu filho vai ser influenciado por esse amigo?” Mas deveríamos acrescentar: “Que tipo de influência meu filho está aprendendo a exercer?” Porque a influência dos pares não acontece apenas na direção negativa. Os amigos também podem estimular: Pesquisas em neurociência do desenvolvimento mostram justamente que os processos sociais que podem reforçar comportamentos problemáticos também podem reforçar comportamentos pró-sociais e positivos. Isso muda nossa pergunta. Não precisamos apenas ensinar: “Cuidado para não andar com pessoas erradas.” Precisamos ensinar: “Seja também uma boa influência.” Como saber se uma amizade está fazendo bem ao meu filho? Talvez seja mais útil observar o que acontece com nosso filho dentro daquela relação do que simplesmente tentar classificar o amigo como “bom” ou “ruim”. Podemos perguntar: Ele consegue ser ele mesmo nessa amizade? Consegue dizer não? É respeitado quando pensa diferente? Existe reciprocidade? Ele precisa esconder constantemente coisas para continuar pertencendo? Essa amizade permite vulnerabilidade? Depois de conviver com esse grupo, quem meu filho está se tornando? Essa última pergunta pode ser especialmente importante. Porque uma amizade saudável não precisa ser perfeita. Amigos erram. Adolescentes erram. Nós também erramos. A questão é observar o padrão da relação. Uma amizade saudável tende a oferecer espaço para respeito, reciprocidade, confiança, liberdade e crescimento. Uma revisão que reuniu centenas de estudos* sobre relações entre pares na adolescência encontrou associações importantes entre qualidade das relações, habilidades socioemocionais, identidade e bem-estar. “Eu não quero que meu filho ande com esse amigo!” Às vezes, teremos razão para nos preocupar. Existem situações em que a intervenção dos pais é necessária. Violência, abuso, drogas, exploração, atividades ilegais, bullying grave ou outras situações que colocam o adolescente em risco não devem ser romantizadas em nome da autonomia. Autonomia não significa abandono. Mas antes de transformar toda preocupação em uma ordem: “Você está proibido de andar com ele.” talvez possamos começar por: Conhecer. Quem é essa pessoa? O que eles fazem juntos? O que meu filho admira nela? Como eles se tratam? O que acontece quando discordam? Convide os amigos e as vezes os pais dos amigos para sua casa. Ofereça carona. Converse. Observe. Não como um investigador procurando provas, mas como um pai ou uma mãe que deseja conhecer o mundo do filho. Depois de conhecer, precisamos conectar Existe uma proteção que nenhum aplicativo de controle parental consegue oferecer: um adolescente que sabe que pode procurar os pais quando alguma coisa dá errado. Isso não significa que não haverá consequências. Significa que a consequência não precisa destruir o vínculo. Podemos dizer: “Se você estiver em uma situação perigosa, pode me ligar. Eu vou buscar você. Primeiro vamos cuidar da sua segurança. Depois vamos conversar sobre o que aconteceu.” Essa combinação é poderosa: segurança primeiro; reflexão depois. E a ciência reforça a importância dessa relação. Uma meta-análise longitudinal envolvendo dezenas de estudos encontrou associação entre relações positivas
Quando minha filha venceu uma gigante chamada timidez

Hoje eu quero contar uma história que, à primeira vista, poderia parecer apenas sobre uma Feira de Ciências. Mas, para mim, foi muito mais do que isso. Foi sobre uma menina diante de um projeto complexo, cheio de etapas, prazos, decisões, imprevistos e desafios. Foi sobre vê-la crescer enquanto fazia algo que, em alguns momentos, parecia grande demais para ela. E foi, principalmente, sobre vê-la enfrentar uma gigante chamada timidez. O projeto começou com uma ideia. E terminou com muito mais do que um experimento. Tudo começou com uma curiosidade e uma pergunta. A partir daí, vieram pesquisa, planejamento, hipóteses, materiais, testes, registros, análise dos resultados, elaboração do cartaz e, finalmente, a preparação para apresentar tudo aquilo diante de outras pessoas. Para quem olha apenas para o resultado final, pode parecer simples. Mas nós que acompanhamos o processo sabemos que um trabalho assim exige muito mais do que conhecimento científico. Exige organização. Exige planejamento. Exige capacidade de lidar com o tempo. Exige responsabilidade. Exige aprender a resolver problemas. E, principalmente, exige persistência. Porque projetos reais raramente acontecem exatamente como imaginamos. E ela descobriu isso na prática. Quando foi preciso começar tudo de novo Em determinado momento, descobrimos que a primeira ideia não poderia ser testada por causa de uma regra da Feira. E agora? Era preciso recomeçar. Todo o planejamento precisava ser revisto. A primeira reação foi de frustração. E como não seria? Quando investimos tempo, energia e expectativa em alguma coisa, descobrir que precisamos mudar o caminho não é fácil. Mas existe uma aprendizagem muito importante escondida nesses momentos: nem sempre precisamos abandonar um objetivo porque o caminho que imaginamos não funcionou. Às vezes, precisamos apenas encontrar outro caminho. Ela precisou exercitar a flexibilidade. Precisou aceitar que algo que havia planejado não aconteceria daquela forma. Precisou pensar novamente. Reorganizar. Recomeçar. E isso é uma habilidade que ela levará para muito além da escola. Porque a vida também será assim. Haverá planos que não darão certo. Portas que se fecharão. Projetos que precisarão ser refeitos. Ideias que precisarão ser modificadas. E talvez uma das maiores competências que podemos ajudar nossos filhos a desenvolver seja justamente esta: a capacidade de recomeçar sem interpretar o recomeço como fracasso. “Eu quero desistir.” Essa frase apareceu algumas vezes. E eu entendo. Quando uma tarefa fica longa, cansativa e desafiadora, desistir parece uma solução muito tentadora. Mas persistência não significa nunca querer desistir. Persistência significa poder sentir vontade de desistir e, ainda assim, avaliar: será que eu realmente quero parar ou estou apenas cansada, frustrada ou com medo? Essa diferença é enorme. Ela não precisava ser uma criança que nunca se cansasse. Não precisava estar motivada todos os dias. Não precisava amar todas as etapas. Precisava aprender que algumas coisas importantes exigem atravessar justamente os momentos em que não estamos com vontade de continuar. E, pouco a pouco, ela continuou. Uma etapa de cada vez. Uma nova rotina, novos prazos e mais responsabilidade Outra parte que me deixou muito orgulhosa foi acompanhar a maneira como ela precisou reorganizar sua rotina. Cada etapa tinha um prazo. Havia coisas que precisavam ser feitas antes que outras pudessem acontecer. Era necessário lembrar, organizar, pesquisar, produzir e entregar. E isso trouxe algo que considero precioso no desenvolvimento de uma criança e de um adolescente: a percepção de que liberdade também vem acompanhada de responsabilidade. Não era mais apenas “fazer um trabalho para a escola”. Era administrar um projeto. E, pouco a pouco, ela foi percebendo que algumas escolhas feitas hoje teriam consequências amanhã. Se não pesquisasse, não teria conteúdo. Se não organizasse os materiais, o experimento poderia ser prejudicado. Se deixasse tudo para depois, o prazo chegaria. Se não revisasse, alguma informação poderia ficar de fora. São aprendizagens que não aparecem necessariamente em uma prova, mas que são fundamentais para a vida. E então apareceu o perfeccionismo. Se havia uma parte que mereciam capítulos à parte, eram o caderno e o cartaz. Para ela, sempre havia alguma coisa que poderia ser melhorado e ter um caderno onde as falhas anteriores precisam deixar o rastro a vista de todos, a principio foi enlouquecedor. Não poder arrancar as páginas e recomeçar sem deixar vestígios da falha anterior foi algo que exigiu superação total com sua autocritica. Um detalhe que poderia ser ajustado. Uma informação que poderia estar mais organizada. Uma parte que poderia ficar mais bonita. O olhar perfeccionista encontrava problemas que talvez ninguém mais percebesse. E foi preciso aprender algo muito difícil: fazer bem feito não é a mesma coisa que fazer perfeito. Existe um momento em que precisamos parar de aperfeiçoar e concluir. Isso não significa abrir mão da qualidade. Significa compreender que o perfeccionismo, quando impede a conclusão, deixa de ser uma busca saudável pela excelência e passa a ser um obstáculo. Aprender a dizer “está bom, está completo, posso seguir” é uma habilidade importantíssima para a vida adulta. Porque haverá trabalhos que precisarão ser entregues. Decisões que precisarão ser tomadas. Projetos que precisarão ser concluídos. E nem sempre teremos a possibilidade de esperar até que tudo esteja exatamente como imaginamos. Ela precisou aprender a olhar para aquilo que fez e reconhecer: não está perfeito, mas está pronto. E isso também é uma vitória. Até que chegou o dia da apresentação E talvez tenha sido aqui que eu tenha percebido com mais clareza o tamanho da conquista. Porque a timidez estava ali. Ela não desapareceu magicamente. O medo não evaporou. O nervosismo não deixou de existir. Mas ela foi. Ficou diante dos avaliadores. Falou sobre o que havia pesquisado. Explicou o que havia feito. Respondeu a todos as perguntas. Continuou. E, naquele momento, eu percebi que coragem não é ausência de medo. Coragem é não permitir que o medo escolha por nós. Ela não precisou deixar de ser tímida para fazer uma apresentação. Precisou descobrir que podia fazer algo mesmo sendo tímida. Essa é uma diferença enorme. Talvez muitas vezes nós, adultos, cometamos o erro de tentar eliminar aquilo que incomoda nossos filhos. Queremos que eles deixem
Eu não emagreci apenas. Eu precisei aprender a cuidar de mim.

Todo mundo já percebeu. Nos últimos meses, perdi bastante peso. Para ser exata, –21,2 kg em 43 semanas. E, provavelmente, a primeira pergunta que vem à cabeça de quem olha para essa transformação é: “O que você fez?” Mas talvez a pergunta mais importante seja outra: “Por que você decidiu fazer isso?” Porque, para mim, essa história não começou na academia, na nutricionista ou na caneta emagrecedora. Começou muito antes. Começou quando eu precisei decidir como queria envelhecer. Minha mãe ainda não chegou aos 70 anos, mas vive hoje com uma qualidade de vida muito ruim, consequência de muitos problemas de saúde relacionados a uma vida inteira de obesidade, sedentarismo e síndrome de Gabriela, eu nasci assim vou morrer assim. Durante muito tempo, eu olhei para aquela realidade sem necessariamente entender que ela também poderia ser uma possibilidade para mim. Até que, em algum momento, precisei encarar isso de frente. Eu não queria envelhecer daquela maneira. Não queria chegar aos 50, 60, 70 anos com um corpo que me impedisse de viver a vida que eu gostaria de viver. E essa consciência foi o meu primeiro grande combustível. Mas querer emagrecer não faz ninguém emagrecer. Se fosse simples assim, não existiriam pessoas gordas no mundo. Eu comecei pelos exercícios. Não queria mais passar pelo constrangimento de subir um lance de escadas e sentir que meu coração estava prestes a sair pela boca. Então coloquei atividade física na minha rotina. Depois, percebi que precisava de ajuda para manter a constância e comecei a trabalhar com um personal. Os exercícios fizeram uma diferença enorme. Melhoraram minhas dores, meu condicionamento, minha musculatura e, principalmente, minha capacidade física. Mas havia um problema: o peso continuava subindo. Então comecei a mexer na alimentação. Diminuí drasticamente o refrigerante eu era completamente viciada.Comecei a incluir frutas.Reduzi as frituras, que faziam parte da minha rotina quase diariamente. E, ainda assim, a balança parecia lutar contra mim. Foi quando precisei entender que meu corpo também estava passando por outras mudanças. Sou uma mulher de 44 anos, vivendo a perimenopausa. Procurei ajuda médica, fiz uma bateria de exames e iniciei a reposição hormonal. E preciso dizer: isso mudou absurdamente a minha qualidade de vida e o meu sono. Mas o peso ainda insistia em permanecer. Então fui além. Procurei um nutrólogo. Foi nesse momento que entrou o medicamento para emagrecimento, além de ajustes na suplementação e uma cobrança muito maior em relação à ingestão diária de proteínas. E aqui preciso abrir um parêntese. Porque a internet faz parecer que a caneta emagrecedora é uma espécie de passe de mágica. Para mim, não foi. O peso realmente começou a cair. Mas vieram também efeitos colaterais importantes. Diarreia que levou quase dois meses para ser controlada. Um sono absurdo, daqueles em que parecia que meu corpo queria simplesmente me desligar. Enjoos. Alteração de olfato e paladar. Uma queda de cabelo assustadora. E uma desregulação emocional que eu não esperava. Porque havia uma coisa que eu não tinha percebido sobre mim: eu usava comida para lidar com as minhas emoções. Eu comia quando estava feliz. Comia quando estava triste. Comia quando estava ansiosa. Comia para comemorar. Comia para compensar. Comia para anestesiar. E, de repente, eu não tinha mais aquela vontade de comer. O medicamento tinha mexido com o comportamento alimentar, mas havia uma pergunta que continuava esperando por mim: “E agora? O que você vai fazer com aquilo que antes você afogava na comida?” Foi aí que precisei procurar ajuda psicológica. E comecei a fazer uma investigação muito mais profunda. O que realmente doía? Em que momento eu aprendi a transformar comida em conforto? Que sentimentos eu estava tentando não sentir? Que dores eu estava tentando não olhar? E talvez essa tenha sido uma das partes mais importantes de todo esse processo. Porque eu não precisava apenas parar de comer. Eu precisava aprender outras maneiras de cuidar de mim. Troquei parte daquele mecanismo por caminhadas. Por páginas e mais páginas de escrita. Por oração. Por uma busca mais intensa por Deus. Aprendi a estabelecer limites em algumas relações. Aprendi a observar mais a minha própria vida e o funcionamento do meu corpo. E comecei a olhar para uma pergunta que parece simples, mas que para mim foi transformadora: Quanto de mim estou entregando aos outros e quanto estou reservando para me reabastecer? Porque eu também precisei aprender que autocuidado não é egoísmo. É manutenção. E hoje? Ganhei ferramentas para lidar com as minhas emoções. Ganhei limites. Ganhei tempo para mim. E, principalmente, comecei a construir uma relação diferente com o meu próprio corpo. Por isso, algumas coisas me incomodam na maneira como a sociedade fala sobre emagrecimento. Existe uma cobrança. “É só fechar a boca.” “É só ter força de vontade.” Como se uma pessoa gorda simplesmente tivesse escolhido não se esforçar. Como se emagrecer não pudesse envolver médicos, exames, medicamentos, nutricionista, psicólogo, atividade física, dinheiro, tempo, apoio familiar e uma enorme quantidade de trabalho emocional. Força de vontade faz parte. Mas ela está longe de ser a história inteira. E existe também a outra ponta: A invalidação. Quando alguém descobre que você usou um medicamento para emagrecer, algumas pessoas imediatamente concluem: “Ah, então foi fácil.” Como se a caneta tivesse feito tudo. Como se os meses de exercícios não existissem. Como se mudar a alimentação não existisse. Como se enfrentar os efeitos colaterais não existisse. Como se procurar ajuda psicológica não existisse. Como se mudar comportamentos, estabelecer limites, enfrentar dores e reconstruir uma relação com a comida não existisse. O medicamento foi uma ferramenta. Não foi a minha história inteira. E existe ainda uma frase que parece elogio, mas que sempre me faz pensar: “Nossa, você deve estar se sentindo linda agora!” Eu me sinto linda agora e me sentia linda antes. Mas isso não significa que havia alguma coisa errada comigo quando eu era gorda. Meu corpo não precisava emagrecer para merecer respeito. Eu não fiquei mais digna. Não fiquei mais inteligente. Não fiquei mais interessante. Não me tornei
Quando foi que aprendemos que adolescentes não precisam mais dos pais?

Há alguns dias marquei uma reunião na escola do meu filho. O boletim dele é excelente. Não havia nenhuma reclamação, nenhuma advertência, nenhuma dificuldade acadêmica. Ainda assim, senti vontade de conversar com a coordenação. Confesso que fiquei surpresa com a reação. Nos primeiros minutos percebi um certo estranhamento. A coordenadora parecia tentar descobrir qual era o problema que justificava aquela reunião. Era como se existisse uma pergunta silenciosa no ar: “Se ele está indo tão bem, por que vocês marcaram uma reunião?” E a resposta era muito simples. Porque notas nunca foram a única coisa que me interessa. Eu queria saber como ele está vivendo a escola quando eu não estou por perto. Como participa das aulas. Como reage quando encontra dificuldades. Se costuma ajudar os colegas. Se procura ficar sozinho ou em grupo. Como lida com frustrações. Se demonstra curiosidade. Se ri. Se parece feliz. Em outras palavras, eu queria conhecer um pouco mais da pessoa que ele está se tornando. Saí daquela reunião pensando em uma pergunta que não saiu mais da minha cabeça. Quando foi que aprendemos que adolescentes não precisam mais dos pais? Quando nossos filhos são pequenos, queremos saber absolutamente tudo. Perguntamos como foi o recreio, quem brincou com eles, qual foi a comida do almoço, se caíram, se choraram, se fizeram um desenho bonito. Sabemos o nome dos amigos, dos professores, dos personagens favoritos, das brincadeiras inventadas e até da cor do copo que preferem usar. Mas basta entrarem na adolescência para algo curioso acontecer. Sem perceber, muitos de nós começamos a recuar. Passamos a perguntar menos. A acompanhar menos. A conhecer menos. Como se crescer significasse não precisar mais de pais atentos. Como se autonomia fosse sinônimo de distanciamento. E talvez essa seja uma das maiores armadilhas da parentalidade. O paradoxo da adolescência A adolescência é uma fase cheia de contradições. Eles querem independência, mas continuam precisando de segurança. Querem tomar decisões, mas ainda recorrem aos pais quando o mundo fica grande demais. Questionam nossas opiniões, mas continuam observando atentamente nossos valores. Fecham a porta do quarto, mas desejam encontrar alguém do outro lado quando decidirem abri-la. É justamente essa contradição que costuma confundir os adultos. Interpretamos o movimento natural de busca por autonomia como um pedido de afastamento. Mas são coisas completamente diferentes. Autonomia não significa abandono. Significa aprender a caminhar sabendo que existe uma base segura para onde sempre será possível voltar. O que a ciência nos mostra A neurociência tem demonstrado que a adolescência não representa o fim do desenvolvimento infantil, mas o início de uma das maiores transformações cerebrais da vida. Durante essa fase acontece uma intensa reorganização do cérebro. Áreas relacionadas às emoções, ao prazer, à busca por novidades e ao reconhecimento social tornam-se extremamente ativas. Ao mesmo tempo, o córtex pré-frontal responsável pelo planejamento, controle de impulsos, tomada de decisões e avaliação de consequências ainda está em pleno desenvolvimento e continuará amadurecendo até aproximadamente os 25 anos de idade. Isso significa que nossos adolescentes são capazes de pensar de forma brilhante em muitos momentos e, ainda assim, agir impulsivamente em outros. Não porque sejam irresponsáveis. Mas porque seus cérebros ainda estão aprendendo a integrar emoção, razão e experiência. Ao mesmo tempo, há algo que poucas pessoas comentam. Na adolescência, a opinião dos pares ganha um peso enorme. O cérebro passa a ser muito sensível à aceitação social, ao pertencimento e ao medo da exclusão. É exatamente por isso que essa fase pode trazer tantas inseguranças. E é justamente por isso que a presença dos pais continua sendo um dos maiores fatores de proteção conhecidos pela ciência. Não uma presença controladora. Mas uma presença emocionalmente disponível. Aquela que comunica: “Você pode explorar o mundo. Eu continuo aqui.” A teoria do apego nunca falou apenas sobre bebês Quando ouvimos falar em apego seguro, quase sempre pensamos em crianças pequenas. Mas o apego não termina aos cinco anos. Nem aos dez. Nem aos quinze. A necessidade humana de ter uma base segura nos acompanha durante toda a vida. A diferença é que, na adolescência, essa base muda de forma. Eles já não precisam que amarremos seus sapatos. Precisam que saibamos escutar suas dúvidas sem ridicularizá-las. Já não querem nossa opinião sobre a roupa que vão vestir. Mas talvez estejam desesperadamente esperando que alguém os ajude a organizar o caos que sentem por dentro. Conhecer continua sendo uma forma de amar Talvez o maior risco da adolescência não seja a rebeldia. Talvez seja a distância silenciosa. Aquela que vai sendo construída aos poucos. Primeiro deixamos de perguntar sobre a escola. Depois já não sabemos quais músicas eles escutam. Não conhecemos mais seus influenciadores favoritos. Ignoramos os jogos que jogam. Não sabemos quais são seus medos, seus sonhos, suas referências ou suas preocupações. Até que um dia muitos pais dizem, com tristeza: “Parece que moro com um estranho.” Mas estranhos não surgem de um dia para o outro. A distância quase sempre é construída em pequenos silêncios. Permanecer curioso é um ato de cuidado Manter proximidade com um adolescente exige investimento. Exige atravessar muitos “aham”. Muitos “sei lá”. Muitos “nada”. Exige entender que nem toda conversa começa quando fazemos uma pergunta. Às vezes ela começa ouvindo, sem reclamar, a música que ele insiste em colocar no carro. Outras vezes nasce durante um lanche, uma caminhada, uma viagem ou enquanto lavam a louça juntos. Também exige aprender a fazer perguntas melhores. Em vez de: “Foi legal a escola?” Talvez experimentar: “Qual foi a parte mais interessante do seu dia?” Ou: “Se eu tivesse assistido às suas aulas hoje, o que mais teria chamado minha atenção?” Perguntas abertas contam histórias. Perguntas fechadas encerram conversas. Também precisamos estar preparados para ouvir opiniões diferentes das nossas. A adolescência é justamente o período em que eles experimentam ideias, constroem identidade e testam valores. Se cada discordância virar um sermão, eles aprenderão que pensar diferente é perigoso. E deixarão de compartilhar. Eles ainda precisam de nós Talvez não para resolver
Quando as leituras não me deixaram quieta: fé, política e o que estamos ensinando aos nossos filhos!

Estava relendo Samuel e Reis esses dias. Não era uma leitura planejada para esse tempo. Mas ela chegou motivada por uma serie de TV que comecei a assistir com Alice, minha filha, sobre o livro de Reis e pelas ultimas pregações pastorais. E foi chegando junto com o Deuses Falsos, do Timothy Keller, uma a indicação de leitura da classe de casais da igreja que frequento. E uma coisa foi puxando a outra. Porque os dois falam, de formas diferentes, sobre a mesma armadilha: a de colocar em seres humanos uma esperança que só cabe em Deus. Aí eu olhei pra mim mesma. E precisei ser honesta. Eu nunca fui aquela pessoa de discussão política nas redes Sempre me mantive neutra. Talvez até distante demais. E teve vezes que essa neutralidade virou omissão. Eu me abstive quando não devia. Cruzei os braços diante de uma responsabilidade que também era minha. Mas também já vi o outro extremo de perto. Pessoas que colocaram tanta esperança em candidato que perderam a paz, os relacionamentos e em alguns casos a fé. E fiquei me perguntando: onde está o equilíbrio pra nós, cristãos? O que Keller me ajudou a ver No capítulo cinco de Deuses Falsos, Keller fala sobre o ídolo do poder. Ele lembra que um ídolo não é necessariamente algo ruim. É uma coisa boa, elevada ao lugar que só Deus pode ocupar. O poder político, em si, é um dom de Deus. Existe para promover justiça e o bem comum. O problema começa quando a nossa esperança de salvação passa a depender de quem está no governo. Quando o candidato favorito vira quase um ungido. E o adversário político vira quase um inimigo a ser destruído. Keller diz que o ídolo do poder promete o que só Deus pode dar: segurança, salvação e glória. E é exatamente essa a linguagem do tempo eleitoral. Candidatos prometem salvar a nação. Restaurar o que foi perdido. Resolver problemas que são, na raiz, de natureza espiritual e moral. E nós, muitas vezes, entregamos o coração. O que Samuel e Reis me ensinaram A história de Israel é um espelho desconfortável. O povo que tinha a Deus como Rei pediu um rei humano. E Deus, em sua soberania, permitiu. Mas avisou: esse rei vai cobrar, vai exigir, e no fim, o peso do poder humano vai esmagar os que nele confiarem. E foi o que aconteceu. Davi, o maior dos reis, foi ao mesmo tempo adúltero e assassino. Salomão, o mais sábio, afogou o coração em idolatria. Se os melhores governantes da história bíblica falharam, que ilusão é a nossa ao depositar esperança messiânica em políticos contemporâneos? A narrativa de Samuel e Reis é, em grande parte, o registro de como os reis humanos, mesmo os melhores; decepcionam. Mas ela também é o registro de algo muito maior: Deus levanta e derruba reis. Sempre foi assim. E vai continuar sendo, independente do resultado das urnas. Nem a direita. Nem a esquerda. Preciso dizer isso com clareza: nenhum espectro político vai salvar uma nação em ruínas. Nem a direita com seu apelo à ordem e aos valores tradicionais. Nem a esquerda com suas promessas de justiça e igualdade. Ambas carregam verdades parciais. Ambas são conduzidas por seres humanos falhos, sujeitos ao orgulho, à corrupção e à cegueira moral. Uma nação que precisa ser salva não encontra salvação em palanque. Ela encontra no arrependimento. Na renovação. No retorno ao Deus vivo. E aí eu pensei nos meus filhos Porque no meio de tudo isso, veio a pergunta que não me largou: O que eu estou ensinando a eles nesse tempo? Que a esperança do país cabe em uma urna? Que vale perder a paz, os relacionamentos e a clareza por causa de uma eleição? Que a nossa fé tem partido? Ou estou ensinando que Deus está acima de tudo isso? Porque nossos filhos aprendem muito menos pelo que a gente fala e muito mais pelo que a gente vive. Eles observam. Eles percebem. Eles absorvem. Se nos veem ansiosos demais com resultado eleitoral, aprendem que a esperança deles depende de quem governa. Se nos veem omissos e distantes, aprendem que responsabilidade política é opcional. Se nos veem agindo com consciência, oração e paz, aprendem que é possível existir no mundo sem ser dominado por ele. O que quero que meus filhos aprendam nesse tempo eleitoral Não é uma lista perfeita. É o que estou buscando viver na prática, dentro da minha própria inconsistência. Votar com consciência e sem fanatismo. Votar é um ato de mordomia cidadã. É responsabilidade, não opção. Mas fazemos isso com olhos abertos — sem idealizar, sem transformar político em profeta. Orar pelos governantes. Todos. Paulo instrui Timóteo a fazer súplicas e intercessões por todos os que estão em autoridade. Não apenas pelos que a gente escolheu. A oração é o lugar onde reconhecemos quem realmente governa por trás dos governantes. Confiar e descansar. Após votar e orar, o cristão descansa. Não na indiferença. Mas na confiança de que o coração do rei está na mão do Senhor. O resultado das urnas não é o veredito final da história. É apenas mais um capítulo que o Autor soberano está escrevendo e vemos isso claramente quando estudamos a linha do tempo e tenho estudado ela a várias anos com meus filhos da educação clássica cristã. O único Salvador que essa nação precisa No fim, toda crise política é um convite espiritual. O verdadeiro Salvador da nossa nação não mora em Brasília. Não tem partido. Não tem palanque. Não dá entrevista coletiva. Ele reina desde antes da fundação do mundo e vai reinar muito depois que todos os políticos que conhecemos virarem história. Seu nome é Jesus Cristo. E o nosso papel como pais, nesse tempo, não é proteger nossos filhos da política. É ensiná-los a não idolatrar ninguém que é apenas humano. Isso começa em casa. Começa em nós. “Não ponhas a tua confiança em príncipes, nem em filho de homem, em quem não há
Telas na infância: o que está em jogo quando colocamos um celular na mão de uma criança?

Outro dia, conversando com uma mãe amiga, ela me disse algo que ficou ecoando dentro de mim: “Eu sei que não devia deixar tanto tempo na tela. Sei até que meu filho nem deveria ter um celular. Mas quando eu tiro, ele chora tanto, briga tanto, fica tão insuportável e desgastante… fica mais fácil deixar.” E eu entendi. Não como julgamento — mas como reconhecimento de uma realidade que muitas famílias vivem em silêncio, com culpa, com cansaço e com a sensação de que estão perdendo uma batalha que nem sabem muito bem como lutar. Porque a verdade é que essa não é uma batalha simples. Estamos falando de uma indústria multibilionária que emprega os melhores profissionais do mundo para estudar o cérebro humano — incluindo o cérebro das nossas crianças — e criar produtos cada vez mais difíceis de largar. Não é fraqueza dos pais. Não é falta de caráter das crianças. É um sistema cuidadosamente construído para que o tempo de tela seja sempre maior. E a pergunta que precisamos fazer não é “meu filho usa tela demais?”, mas sim: o que está sendo substituído quando a tela entra? Tela não é o problema — o que ela substitui é Nenhuma tela, em si, destrói uma infância. O problema começa quando ela substitui experiências que são insubstituíveis para o desenvolvimento de uma criança: Quando a tela preenche todos esses espaços, o que acontece não é apenas “distração”. Acontece uma reorganização do cérebro. O sistema de recompensa aprende a esperar estímulos rápidos, intensos e constantes. E o que não oferece isso — a professora que explica, o livro que exige paciência, a conversa que pede atenção — passa a parecer insuportavelmente lento. O que a ciência diz — sem alarme, mas com clareza A Sociedade Brasileira de Pediatria, a Organização Mundial da Saúde e a Academia Americana de Pediatria convergem nas recomendações: E a pesquisa TIC Kids Online Brasil nos diz que 93% das crianças entre 9 e 17 anos já usam a internet — com 23% tendo tido o primeiro acesso antes dos 6 anos. Não trago esses dados para assustar. Trago porque acredito que informação é a base de qualquer mudança real. Quando entendemos o que está acontecendo no cérebro do nosso filho, deixamos de ver a tela como um simples passatempo e passamos a enxergar as escolhas que fazemos com ela como aquilo que são: formação. Os impactos que poucos percebem como relacionados às telas Muitas vezes, quando falo sobre os impactos das telas em encontros com pais ou conversar informais com amigos, vejo olhares surpresos. Porque há consequências que não parecem óbvias à primeira vista: Dificuldades motoras. O cérebro infantil precisa de movimento real — correr, pular, manipular, sentir texturas — para desenvolver coordenação. Telas são sedentárias e uniformes. Crianças que passam muitas horas diante delas chegam à escola com dificuldades que antes eram raras. Problemas posturais. A coluna de uma criança ainda está em formação. O uso prolongado de celulares e tablets — geralmente com a cabeça inclinada para baixo — impõe cargas que podem gerar desvios sérios e dores crônicas. Miopia. O foco contínuo em distâncias curtas, sem pausas para longe, estimula o crescimento excessivo do globo ocular. O tempo ao ar livre, que protege naturalmente a visão destes efeitos, é cada vez mais escasso. Dificuldade de leitura emocional. Microexpressões, tom de voz, linguagem corporal — tudo isso se aprende pelo convívio presencial. Quando as telas substituem o contato face a face, esse aprendizado fica empobrecido. E crianças chegam à adolescência sem saber muito bem como se relacionar presencialmente. Ansiedade e irritabilidade. A retirada da tela gera reações que muitos pais descrevem como “birra”, mas que são, na verdade, uma resposta neurológica real — semelhante à síndrome de abstinência comportamental como as que drogados tem quando não podem fazer uso da droga. E há algo que preciso nomear com cuidado, mas com coragem: o acesso à pornografia. 90% do consumo ocorre via dispositivos móveis. 75% dos pais acreditam que seus filhos nunca foram expostos — enquanto a realidade diz outra coisa. Isso não é um tema para evitar. É uma conversa que precisa acontecer em casa, antes que aconteça nas telas. Mas e quando a tela ajuda? Porque ela pode, sim, ajudar. Videochamadas que mantêm vínculos com avós distantes. Conteúdos educativos assistidos junto com um adulto que conversa e questiona. Ferramentas de acessibilidade para crianças com deficiência. Expressão criativa — vídeos, música, arte digital. A tela como ferramenta, com intenção e presença adulta, é completamente diferente da tela como calmante, como babá eletrônica ou como fuga. A diferença está menos no quanto e mais no como e para quê. O que podemos fazer — sem culpa, mas com responsabilidade Não acredito em culpa parental. Acredito em informação, em comunidade e em mudanças possíveis. E há coisas pequenas, concretas, que fazem diferença real: Mesa do jantar sem tela. Parece simples. É totalmente revolucionário. Quarto sem celular na hora de dormir. O sono muda. O humor muda, pois a qualidade do sono é outra. Assistir junto e conversar. “O que você achou? Como você acha que esse personagem estava se sentindo?” Construir acordos, não só impor regras. Filhos que participam da construção aderem mais e melhor. Oferecer alternativas reais. Brincar livre, jogos de tabuleiro, livros, tempo ao ar livre. Não como punição pela tela — como possibilidades genuínas. Cuidar do nosso próprio exemplo. Nossos filhos aprendem muito mais pelo que veem do que pelo que ouvem. Uma última coisa Do meu ponto de vista, nenhuma família consegue fazer isso sozinha. Precisamos, de comunidade, de políticas públicas, de escolas, igrejas que protejam as crianças no ambiente digital. Precisamos de legislações que regulem o que as plataformas podem fazer com o cérebro dos nossos filhos. Mas também precisamos uns dos outros. De espaços onde possamos falar sobre isso sem julgamento. Onde os pais possam admitir que estão cansados, que não sabem tudo, que também erram — e ainda assim seguir em frente com mais clareza. É
Quando o amor também precisa aprender a compreender.

Existe uma frase muito conhecida sobre maternidade que sempre me causou desconforto: “Quando nasce um filho, nasce uma mãe.” E talvez exista beleza nela.Mas existe também uma realidade pouco falada:nem sempre a mãe que nasce está preparada para o filho que recebe. Porque alguns filhos chegam trazendo desafios, intensidades e necessidades que ultrapassam aquilo que imaginávamos conhecer sobre infância. Por aqui, além do TDA, também convivemos com as altas habilidades. E eu preciso confessar: durante muito tempo, muitas características do meu filho passaram despercebidas para mim. Não porque eu não observasse.Mas porque eu simplesmente não tinha repertório para compreender aquilo que via em sua totalidade. Só quando comecei a estudar profundamente sobre neurodivergência é que muitas peças começaram a se encaixar. E talvez uma das maiores descobertas tenha sido entender que altas habilidades vão muito além da ideia romantizada de “uma criança muito inteligente”. Porque, na prática, estamos falando de um cérebro que funciona de maneira intensa, acelerada e profundamente sensível. O cérebro com altas habilidades não é apenas “mais inteligente” Existe um equívoco muito comum de imaginar que crianças e adolescentes com altas habilidades vivem em constante facilidade. Mas a realidade costuma ser muito mais complexa. O cérebro dessas crianças e adolescentes frequentemente apresenta: Muitas vezes, elas percebem nuances emocionais, sociais e cognitivas que outras crianças e adolescentes da mesma idade ainda não conseguem compreender ou acompanhar. E isso pode gerar um sentimento profundo de inadequação nelas. Porque enquanto cronologicamente são crianças ou adolescentes, emocionalmente e intelectualmente podem experimentar conflitos muito mais complexos, que fogem da sua idade cronológica. É como se o cérebro estivesse constantemente “ligado”. -Pensando.-Associando.-Questionando.-Sentindo. E essa intensidade não fica apenas na mente.Ela frequentemente atravessa o corpo. Quando o emocional também impacta o físico Uma das coisas que mais me surpreendeu quando comecei a estudar sobre altas habilidades foi compreender o quanto o corpo pode responder à intensidade emocional dessas crianças e adolescentes. Em muitos casos, existe uma relação importante entre hipersensibilidade, estresse interno constante e manifestações físicas recorrentes. Não significa que toda enfermidade esteja ligada às altas habilidades.Mas existe, sim, uma tendência maior a somatizações e sensibilidades físicas em algumas crianças/adolescentes neurodivergentes. Por aqui, por exemplo, começaram a fazer sentido: Porque crianças e adolescentes com altas habilidades frequentemente vivem em estado de hiperestimulação. Elas absorvem muito do ambiente.Sentem intensamente.Pensam intensamente.E muitas vezes não conseguem regular tudo isso sozinhas. O desafio social das crianças e adolescentes com altas habilidades Existe também um aspecto pouco falado:a solidão emocional. Nem sempre é fácil para uma criança ou um adolescente lidar com a sensação de pensar diferente dos colegas. Muitas vezes elas: E talvez uma das tarefas mais delicadas para nós, pais, seja ajudá-las a compreender que:ser diferente não significa estar errado. Elas não precisam diminuir quem são para caber nos espaços. Mas também precisam aprender e compreender que nem todas as pessoas enxergam o mundo da mesma maneira que elas e esta tudo bem. E isso exige desenvolvimento socioemocional constante. O que pode ajudar essas crianças e adolescentes? Depois de muita busca, estudo e prática dentro da nossa própria realidade, fui percebendo que algumas ferramentas fazem enorme diferença. 1. Nomear emoções Crianças e adolescentes intensos precisam aprender a reconhecer o que sentem. Muitas vezes elas vivem emoções enormes sem conseguir organizá-las internamente. Ensinar vocabulário emocional ajuda a reduzir explosões, ansiedade e sensação de confusão interna. 2. Rotinas de desaceleração O cérebro acelerado também precisa aprender a descansar. Momentos de pausa são fundamentais: 3. Desenvolvimento socioemocional Nem sempre inteligência emocional acompanha inteligência cognitiva. Por isso, essas crianças e adolescentes precisam de ajuda para aprender: 4. Acompanhamento profissional Psicólogos, terapeutas ocupacionais, neuropsicólogos e profissionais especializados podem ajudar tanto a criança ou o adolescente quanto a família a compreender melhor o funcionamento neurodivergente. E isso faz diferença não apenas no presente, mas no futuro emocional dessa criança ou adolescente. 5. Ambientes onde ela possa existir sem mascaramento Talvez uma das maiores necessidades dessas crianças e adolescentes seja encontrar espaços seguros onde não precisem esconder quem são. Ambientes onde possam: Pais também precisam aprender Talvez uma das maiores lições da parentalidade neurodivergente seja entender que amor, sozinho, nem sempre basta. Nós precisamos aprender. Precisamos estudar.Buscar informações.Reconhecer limites.Pedir ajuda.Construir rede de apoio. E principalmente estarmos disponíveis e acessíveis a escutar nossos filhos. Porque nossos filhos não precisam de pais perfeitos.Precisam de adultos disponíveis para compreendê-los profundamente. E talvez parentalidade seja exatamente isso:crescer junto com os filhos que recebemos. Mesmo quando eles nos levam por caminhos que jamais imaginamos percorrer. Com carinho,Fernanda GracioliLeve Aconchego 🌿“Acolher a singularidade dos nossos filhos também é ajudá-los a transformar intensidade em potência, sem fazer da diferença um peso para existir.”— Leve Aconchego
Quando amar também significa permitir que eles enfrentem as consequências

Conviver com uma criança neurodivergente é, muitas vezes, viver entre dois extremos: o desejo intenso de proteger e a necessidade urgente de preparar. Hoje pela manhã, vivi uma situação simples — mas profundamente significativa — com um de meus filhos. Por aqui, temos crianças com déficit de atenção. E grande parte da nossa rotina gira em torno de ajudá-los a construir estratégias para lidar com as dificuldades que acompanham essa neurodivergência. Uma dessas estratégias são as listas de verificação. Porque crianças com TDA(H) frequentemente enfrentam dificuldades relacionadas à memória operacional, organização e manutenção da atenção. Não basta “lembrar”. Muitas vezes, elas realmente acreditam que fizeram tudo o que precisavam fazer. Antes de sair para a aula de natação, perguntei várias vezes:— Está tudo arrumado?E a resposta foi:— Sim. Ao chegarmos, veio a descoberta: a touca e o óculos haviam sido esquecidos, itens esses básicos, para que a aula aconteça. Na primeira vez que isso aconteceu, eu resolvi por ela. Conversei com o professor, pedi itens emprestados e tentei evitar qualquer desconforto. Hoje, porém, escolhi agir diferente. Pedi que ela mesma explicasse ao professor o que havia acontecido. E eu não vou romantizar esse momento:foi doloroso. Vi a vergonha nos olhos dela.Vi a tentativa de fugir daquela situação.Vi o desconforto estampado em cada gesto. E, ainda assim, permaneci ali. Não por falta de amor.Mas justamente por amor. Existe uma diferença muito importante entre acolher uma neurodivergência e incapacitar uma criança por causa dela. Muitas vezes, na tentativa de proteger nossos filhos do sofrimento, acabamos impedindo que eles desenvolvam habilidades fundamentais para a vida adulta. Sim, o TDA(H) é real.As dificuldades são reais.O impacto emocional também é real. Mas o diagnóstico não pode ser apenas uma justificativa permanente para tudo.Ele precisa se tornar um ponto de partida para construção de ferramentas. Nosso papel como pais não é exigir perfeição.É ensinar caminhos. É ajudar a criança a perceber:“Meu cérebro funciona de uma maneira diferente. Então eu preciso de estratégias diferentes.” –Listas.-Alarmes.-Rotinas visuais.-Organização por etapas.-Treino de responsabilidade.-Consequências proporcionais e seguras. Tudo isso faz parte do processo. E talvez uma das tarefas mais difíceis da parentalidade seja suportar o desconforto de ver nossos filhos frustrados sem correr imediatamente para salvá-los. Porque haverá um dia em que nós não estaremos presentes para organizar suas mochilas, resolver seus esquecimentos ou falar por eles. E é justamente agora, dentro do ambiente seguro do amor, que eles precisam aprender. Aprender que esquecer algo traz consequências.Aprender que erros podem ser corrigidos.Aprender que sentir vergonha não significa ser incapaz.Aprender que pedir ajuda também faz parte da vida. O professor, hoje, foi acolhedor. Trouxe uma touca e um óculos emprestados. A aula aconteceu. Mas o maior aprendizado desta manhã, talvez não tenha sido sobre natação. Talvez tenha sido sobre autonomia. Sobre responsabilidade. Sobre construção de recursos emocionais. Sobre uma mãe tentando equilibrar proteção e preparo. Porque amar uma criança neurodivergente não é apenas diminuir os impactos do mundo sobre ela.É também ajudá-la a construir ferramentas para atravessar esse mundo com mais segurança, autonomia e dignidade. E isso, muitas vezes, dói primeiro na gente. Me conta como tem sido lidar com esses desafios por aí? Com carinho,Fernanda GracioliLeve Aconchego 🌿 “O amor que protege também precisa ser o amor que prepara.”— Leve Aconchego