Todo mundo já percebeu.

Nos últimos meses, perdi bastante peso. Para ser exata, –21,2 kg em 43 semanas.

E, provavelmente, a primeira pergunta que vem à cabeça de quem olha para essa transformação é:

“O que você fez?”

Mas talvez a pergunta mais importante seja outra:

“Por que você decidiu fazer isso?”

Porque, para mim, essa história não começou na academia, na nutricionista ou na caneta emagrecedora.

Começou muito antes.

Começou quando eu precisei decidir como queria envelhecer.

Minha mãe ainda não chegou aos 70 anos, mas vive hoje com uma qualidade de vida muito ruim, consequência de muitos problemas de saúde relacionados a uma vida inteira de obesidade, sedentarismo e síndrome de Gabriela, eu nasci assim vou morrer assim.

Durante muito tempo, eu olhei para aquela realidade sem necessariamente entender que ela também poderia ser uma possibilidade para mim.

Até que, em algum momento, precisei encarar isso de frente.

Eu não queria envelhecer daquela maneira.

Não queria chegar aos 50, 60, 70 anos com um corpo que me impedisse de viver a vida que eu gostaria de viver.

E essa consciência foi o meu primeiro grande combustível.

Mas querer emagrecer não faz ninguém emagrecer.

Se fosse simples assim, não existiriam pessoas gordas no mundo.

Eu comecei pelos exercícios.

Não queria mais passar pelo constrangimento de subir um lance de escadas e sentir que meu coração estava prestes a sair pela boca.

Então coloquei atividade física na minha rotina.

Depois, percebi que precisava de ajuda para manter a constância e comecei a trabalhar com um personal.

Os exercícios fizeram uma diferença enorme.

Melhoraram minhas dores, meu condicionamento, minha musculatura e, principalmente, minha capacidade física.

Mas havia um problema:

o peso continuava subindo.

Então comecei a mexer na alimentação.

Diminuí drasticamente o refrigerante eu era completamente viciada.
Comecei a incluir frutas.
Reduzi as frituras, que faziam parte da minha rotina quase diariamente.

E, ainda assim, a balança parecia lutar contra mim.

Foi quando precisei entender que meu corpo também estava passando por outras mudanças.

Sou uma mulher de 44 anos, vivendo a perimenopausa.

Procurei ajuda médica, fiz uma bateria de exames e iniciei a reposição hormonal.

E preciso dizer: isso mudou absurdamente a minha qualidade de vida e o meu sono.

Mas o peso ainda insistia em permanecer.

Então fui além.

Procurei um nutrólogo.

Foi nesse momento que entrou o medicamento para emagrecimento, além de ajustes na suplementação e uma cobrança muito maior em relação à ingestão diária de proteínas.

E aqui preciso abrir um parêntese.

Porque a internet faz parecer que a caneta emagrecedora é uma espécie de passe de mágica.

Para mim, não foi.

O peso realmente começou a cair.

Mas vieram também efeitos colaterais importantes.

Diarreia que levou quase dois meses para ser controlada.

Um sono absurdo, daqueles em que parecia que meu corpo queria simplesmente me desligar.

Enjoos.

Alteração de olfato e paladar.

Uma queda de cabelo assustadora.

E uma desregulação emocional que eu não esperava.

Porque havia uma coisa que eu não tinha percebido sobre mim:

eu usava comida para lidar com as minhas emoções.

Eu comia quando estava feliz.

Comia quando estava triste.

Comia quando estava ansiosa.

Comia para comemorar.

Comia para compensar.

Comia para anestesiar.

E, de repente, eu não tinha mais aquela vontade de comer.

O medicamento tinha mexido com o comportamento alimentar, mas havia uma pergunta que continuava esperando por mim:

“E agora? O que você vai fazer com aquilo que antes você afogava na comida?”

Foi aí que precisei procurar ajuda psicológica.

E comecei a fazer uma investigação muito mais profunda.

O que realmente doía?

Em que momento eu aprendi a transformar comida em conforto?

Que sentimentos eu estava tentando não sentir?

Que dores eu estava tentando não olhar?

E talvez essa tenha sido uma das partes mais importantes de todo esse processo.

Porque eu não precisava apenas parar de comer.

Eu precisava aprender outras maneiras de cuidar de mim.

Troquei parte daquele mecanismo por caminhadas.

Por páginas e mais páginas de escrita.

Por oração.

Por uma busca mais intensa por Deus.

Aprendi a estabelecer limites em algumas relações.

Aprendi a observar mais a minha própria vida e o funcionamento do meu corpo.

E comecei a olhar para uma pergunta que parece simples, mas que para mim foi transformadora:

Quanto de mim estou entregando aos outros e quanto estou reservando para me reabastecer?

Porque eu também precisei aprender que autocuidado não é egoísmo.

É manutenção.

E hoje?

Ganhei ferramentas para lidar com as minhas emoções.

Ganhei limites.

Ganhei tempo para mim.

E, principalmente, comecei a construir uma relação diferente com o meu próprio corpo.

Por isso, algumas coisas me incomodam na maneira como a sociedade fala sobre emagrecimento.

Existe uma cobrança.

“É só fechar a boca.”

“É só ter força de vontade.”

Como se uma pessoa gorda simplesmente tivesse escolhido não se esforçar.

Como se emagrecer não pudesse envolver médicos, exames, medicamentos, nutricionista, psicólogo, atividade física, dinheiro, tempo, apoio familiar e uma enorme quantidade de trabalho emocional.

Força de vontade faz parte. Mas ela está longe de ser a história inteira.

E existe também a outra ponta:

A invalidação.

Quando alguém descobre que você usou um medicamento para emagrecer, algumas pessoas imediatamente concluem:

“Ah, então foi fácil.”

Como se a caneta tivesse feito tudo.

Como se os meses de exercícios não existissem.

Como se mudar a alimentação não existisse.

Como se enfrentar os efeitos colaterais não existisse.

Como se procurar ajuda psicológica não existisse.

Como se mudar comportamentos, estabelecer limites, enfrentar dores e reconstruir uma relação com a comida não existisse.

O medicamento foi uma ferramenta. Não foi a minha história inteira.

E existe ainda uma frase que parece elogio, mas que sempre me faz pensar:

“Nossa, você deve estar se sentindo linda agora!”

Eu me sinto linda agora e me sentia linda antes.

Mas isso não significa que havia alguma coisa errada comigo quando eu era gorda.

Meu corpo não precisava emagrecer para merecer respeito.

Eu não fiquei mais digna.

Não fiquei mais inteligente.

Não fiquei mais interessante.

Não me tornei uma pessoa melhor.

Eu apenas estou vivendo uma nova fase da minha relação com o meu corpo e com a minha saúde.

E talvez essa seja a maior lição que esse processo está me ensinando:

Meu emagrecimento precisa ser sobre mim.

Não sobre caber na expectativa de alguém.

Não sobre finalmente ser considerada bonita.

Não sobre provar alguma coisa.

Não sobre receber aprovação.

É sobre conseguir subir uma escada sem achar que vou morrer.

É sobre caminhar.

É sobre brincar.

É sobre viajar.

É sobre ter força.

É sobre envelhecer de uma maneira diferente.

É sobre estar presente na vida que ainda quero viver.

Eu não emagreci para finalmente começar a viver.

Eu emagreci porque quero viver melhor os muitos anos que ainda tenho pela frente.

E essa, para mim, é uma diferença enorme.

Com carinho,
Fernanda Gracioli
Leve Aconchego

🌿 “Que a nossa maior transformação seja aprender a cuidar da vida que ainda temos pela frente.”

— Leve Aconchego

Author

4 respostas

  1. Parabéns Fernanda pela atitude que tomou na sua vida de emagrecer para ter saúde e não um corpo esbelto para mostrar. Ter um corpo bonito é consequência, mas não o importante.
    Sempre gostei de conversar com você, pois é alegre, divertida e animada. Continue na luta sempre pensando na saúde e poder envelhecer bem, sem precisar ficar dependente de outros.
    Bjs

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