Existe uma fase da parentalidade em que começamos a perceber que já não somos a principal referência social dos nossos filhos.
Os amigos começam a ocupar mais espaço.
As conversas mudam. Os interesses mudam. A opinião dos colegas parece ganhar um peso que, às vezes, nós, pais, não conseguimos compreender.
E talvez uma das frases que mais assuste os pais nessa fase seja:
“Meu filho está andando com más companhias.”
A preocupação é legítima.
Mas talvez precisemos fazer uma pergunta diferente:
Como podemos proteger nossos filhos das más influências sem afastá-los de nós justamente quando eles mais precisam da nossa orientação?
A adolescência é também uma fase de pertencimento
A adolescência não é apenas uma fase de mudanças hormonais, físicas e cerebrais. É também um período em que o jovem começa a construir, de maneira mais consciente, sua identidade.
Ele começa a perguntar, mesmo que não verbalize:
Quem sou eu?
Onde eu pertenço?
Que tipo de pessoa quero ser?
Como as outras pessoas me enxergam?
Nesse processo, os pares (vulgo amigos), ganham uma importância especial.
Isso não significa que os pais deixaram de ser importantes. Significa que o adolescente está ampliando seu mundo social e aprendendo a funcionar nele.
E as amizades se tornam um verdadeiro laboratório de desenvolvimento.
É nelas que ele aprende a negociar, discordar, confiar, estabelecer limites, lidar com rejeição, reparar conflitos, pedir ajuda e experimentar diferentes aspectos de sua identidade.
Pesquisas sobre desenvolvimento adolescente mostram que a influência dos pares é uma força importante nessa fase e pode contribuir tanto para comportamentos adaptativos quanto para comportamentos problemáticos.
Por isso, amizade não é apenas companhia. É também um ambiente de formação.
“Mas meu filho sabe que isso é errado!”
Essa frase aparece muitas vezes nas conversas entre pais de adolescentes.
E ela nos leva a frase: conhecimento não é a mesma coisa que autorregulação.
Um adolescente pode saber que determinada escolha é perigosa e, ainda assim, ter dificuldade para agir de acordo com esse conhecimento quando está emocionalmente envolvido, diante de uma recompensa imediata ou sob pressão dos amigos.
A adolescência é marcada por mudanças na sensibilidade a recompensas e pela maturação progressiva das redes cerebrais envolvidas no controle cognitivo.
E existe algo particularmente interessante quando falamos de amigos.
Em um conhecido estudo experimental*, pesquisadores observaram que a presença de pares aumentou o comportamento de risco dos adolescentes em uma tarefa simulada de direção e esteve associada a maior ativação de regiões relacionadas ao processamento de recompensa.
Isso nos ajuda a compreender uma situação muito comum:
O adolescente pode estar sozinho e dizer:
“Eu jamais faria isso.”
Mas, diante dos amigos, a situação muda.
Existe a necessidade de pertencer.
Existe o medo de parecer diferente.
Existe a recompensa social.
Existe a emoção do momento.
E, então, saber o que é certo pode não ser suficiente para conseguir fazer o que é certo.
É por isso que precisamos ensinar nossos filhos não apenas o que escolher, mas como escolher quando estiverem sob pressão.
Influência não significa necessariamente má influência
Talvez essa seja uma das mudanças mais importantes na nossa maneira de olhar para as amizades dos nossos filhos.
Quando pensamos em influência, normalmente pensamos:
“Será que meu filho vai ser influenciado por esse amigo?”
Mas deveríamos acrescentar:
“Que tipo de influência meu filho está aprendendo a exercer?”
Porque a influência dos pares não acontece apenas na direção negativa.
Os amigos também podem estimular:
- estudo;
- esporte;
- criatividade;
- responsabilidade;
- solidariedade;
- serviço;
- participação comunitária;
- hábitos saudáveis;
- fé.
Pesquisas em neurociência do desenvolvimento mostram justamente que os processos sociais que podem reforçar comportamentos problemáticos também podem reforçar comportamentos pró-sociais e positivos.
Isso muda nossa pergunta.
Não precisamos apenas ensinar:
“Cuidado para não andar com pessoas erradas.”
Precisamos ensinar:
“Seja também uma boa influência.”
Como saber se uma amizade está fazendo bem ao meu filho?
Talvez seja mais útil observar o que acontece com nosso filho dentro daquela relação do que simplesmente tentar classificar o amigo como “bom” ou “ruim”.
Podemos perguntar:
Ele consegue ser ele mesmo nessa amizade?
Consegue dizer não?
É respeitado quando pensa diferente?
Existe reciprocidade?
Ele precisa esconder constantemente coisas para continuar pertencendo?
Essa amizade permite vulnerabilidade?
Depois de conviver com esse grupo, quem meu filho está se tornando?
Essa última pergunta pode ser especialmente importante.
Porque uma amizade saudável não precisa ser perfeita. Amigos erram. Adolescentes erram. Nós também erramos.
A questão é observar o padrão da relação.
Uma amizade saudável tende a oferecer espaço para respeito, reciprocidade, confiança, liberdade e crescimento. Uma revisão que reuniu centenas de estudos* sobre relações entre pares na adolescência encontrou associações importantes entre qualidade das relações, habilidades socioemocionais, identidade e bem-estar.
“Eu não quero que meu filho ande com esse amigo!”
Às vezes, teremos razão para nos preocupar.
Existem situações em que a intervenção dos pais é necessária.
Violência, abuso, drogas, exploração, atividades ilegais, bullying grave ou outras situações que colocam o adolescente em risco não devem ser romantizadas em nome da autonomia.
Autonomia não significa abandono.
Mas antes de transformar toda preocupação em uma ordem:
“Você está proibido de andar com ele.”
talvez possamos começar por:
Conhecer.
Quem é essa pessoa?
O que eles fazem juntos?
O que meu filho admira nela?
Como eles se tratam?
O que acontece quando discordam?
Convide os amigos e as vezes os pais dos amigos para sua casa. Ofereça carona. Converse. Observe.
Não como um investigador procurando provas, mas como um pai ou uma mãe que deseja conhecer o mundo do filho.
Depois de conhecer, precisamos conectar
Existe uma proteção que nenhum aplicativo de controle parental consegue oferecer:
um adolescente que sabe que pode procurar os pais quando alguma coisa dá errado.
Isso não significa que não haverá consequências.
Significa que a consequência não precisa destruir o vínculo.
Podemos dizer:
“Se você estiver em uma situação perigosa, pode me ligar. Eu vou buscar você. Primeiro vamos cuidar da sua segurança. Depois vamos conversar sobre o que aconteceu.”
Essa combinação é poderosa:
segurança primeiro; reflexão depois.
E a ciência reforça a importância dessa relação. Uma meta-análise longitudinal envolvendo dezenas de estudos encontrou associação entre relações positivas entre pais e adolescentes e relações posteriores mais positivas com os pares.
Ou seja:
nossa relação com nossos filhos não precisa competir com as amizades deles. Ela pode ajudá-los a construir amizades melhores.
Ensinar discernimento é mais poderoso do que simplesmente proibir
Em algum momento, não estaremos presentes.
Não poderemos escolher todos os amigos.
Não saberemos todas as conversas.
Não veremos todas as situações.
Por isso, nossa tarefa não pode ser apenas controlar o ambiente.
Precisamos formar critérios internos.
Podemos perguntar:
“Você consegue dizer não para essa pessoa?”
“Ela respeita seus limites?”
“Você sente que precisa fazer coisas que não quer para continuar pertencendo?”
“Você admira quem você se torna quando está com esse grupo?”
“Essa amizade aproxima você ou afasta você daquilo que considera importante?”
“Se seu amigo estivesse fazendo algo que pudesse prejudicá-lo, você conseguiria dizer isso a ele?”
Essas perguntas ajudam nosso filho a desenvolver algo muito mais valioso do que uma lista de “amigos permitidos”.
Discernimento.
E quando a pressão do grupo aparecer?
Não adianta esperar que nosso filho descubra como reagir somente quando estiver diante da situação.
Podemos ensaiar.
“E se alguém oferecer alguma coisa que você não quer?”
“Como você responderia?”
“E se disserem que você está com medo?”
“E se todo mundo fizer?”
“Quem poderia estar ao seu lado?”
“Como você poderia sair dessa situação?”
Ensaiar não é criar medo.
É criar repertório.
Um adolescente pode ter algumas frases preparadas:
“Não vou fazer isso.”
“Isso não é para mim.”
“Vou embora.”
“Não estou confortável.”
“Pode fazer, mas eu não vou.”
E também pode aprender que sair de uma situação não é covardia.
Às vezes, a maior demonstração de autonomia é saber quando ir embora.
E o que Deus nos ensina sobre tudo isso?
A necessidade de relacionamento não é um defeito que precisamos corrigir em nossos filhos.
Fomos criados para a relação.
Em Gênesis 2:18, Deus declara:
“Não é bom que o homem esteja só.”
A própria história bíblica nos mostra um Deus que se revela e se relaciona com seu povo.
Jesus também não formou seus discípulos apenas transmitindo informações.
Ele caminhou com eles.
Comeu com eles.
Ensinou.
Corrigiu.
Ouviu.
Serviu.
Perdoou.
Confrontou.
E formou uma comunidade.
Isso nos ensina algo precioso sobre parentalidade:
nossos filhos não aprendem relacionamento apenas pelas regras que estabelecemos. Eles aprendem também pelo relacionamento que experimentam conosco.
“As más companhias corrompem os bons costumes”
Paulo nos alerta em 1 Coríntios 15:33:
“As más companhias corrompem os bons costumes.”
É um conselho que continua muito atual.
Mas ele não precisa ser entendido como um chamado para criarmos filhos isolados de qualquer pessoa que pense ou viva diferente de nós.
A própria vida de Jesus mostra proximidade com pessoas muito diferentes.
A questão é outra:
Quem está formando quem?
Podemos ensinar nossos filhos a amar pessoas diferentes sem precisar imitar tudo o que elas fazem.
Podemos ensinar acolhimento sem ausência de limites.
Podemos ensinar respeito sem abrir mão de valores.
Podemos ensinar nossos filhos a entrar em diferentes ambientes sem perder sua identidade.
Provérbios 13:20 também nos lembra:
“Quem anda com os sábios será sábio, mas o companheiro dos insensatos acabará mal.”
A sabedoria bíblica e o que a ciência observa aqui se encontram em um ponto importante:
as relações nos formam.
Paulo nos alerta em 1 Coríntios 15:33:
“As más companhias corrompem os bons costumes.”
É um conselho que continua muito atual.
Mas ele não precisa ser entendido como um chamado para criarmos filhos isolados de qualquer pessoa que pense ou viva diferente de nós.
A própria vida de Jesus mostra proximidade com pessoas muito diferentes.
A questão é outra:
Quem está formando quem?
Podemos ensinar nossos filhos a amar pessoas diferentes sem precisar imitar tudo o que elas fazem.
Podemos ensinar acolhimento sem ausência de limites.
Podemos ensinar respeito sem abrir mão de valores.
Podemos ensinar nossos filhos a entrar em diferentes ambientes sem perder sua identidade.
Provérbios 13:20 também nos lembra:
“Quem anda com os sábios será sábio, mas o companheiro dos insensatos acabará mal.”
A sabedoria bíblica e o que a ciência observa aqui se encontram em um ponto importante:
as relações nos formam.
Mas existe uma pergunta ainda mais difícil para nós, pais
Talvez antes de perguntar:
“Que tipo de amigo meu filho está escolhendo?”
precisemos perguntar:
“Que tipo de amigo eu estou sendo para meu filho?”
Meu filho encontra em mim:
- escuta?
- respeito?
- acolhimento?
- honestidade?
- capacidade de pedir perdão?
- espaço para discordar?
- segurança para contar seus erros?
- limites que protegem sem humilhar?
Porque não podemos simplesmente ensinar:
“Escolha bons amigos.”
Precisamos também oferecer uma experiência de boa relação.
Uma relação na qual nosso filho descubra que amor não significa concordar com tudo.
Que limite não significa rejeição.
Que conflito não significa rompimento.
Que pedir perdão não diminui ninguém.
Que vulnerabilidade pode ser segura.
E que pertencimento não deveria exigir que alguém deixe de ser quem é.
Talvez nosso objetivo precise mudar
Não quero formar um filho que precise ser protegido de todas as influências.
Quero ajudá-lo a se tornar alguém capaz de discernir influências.
Não quero escolher todos os seus amigos.
Quero ensiná-lo a reconhecer relações que fazem bem e aquelas que o diminuem.
Não quero que ele tenha medo de pessoas diferentes.
Quero que saiba quem é, quais valores carrega e a quem pertence.
E, acima de tudo, quero que ele saiba que, mesmo quando errar, pode voltar para casa.
Porque nossos filhos vão crescer.
Nós não conseguiremos segurar suas mãos para sempre.
Chegará o momento em que precisaremos deixá-los caminhar.
E talvez uma das tarefas mais difíceis e mais bonitas da parentalidade seja justamente essa:
soltar as mãos sem soltar o coração.
Reflita e Exercite
Talvez hoje você possa conversar com seu filho sem falar sobre “amigos bons ou ruins”.
Pergunte apenas:
“O que faz alguém ser um bom amigo para você?”
E depois escute.
Sem corrigir imediatamente.
Sem transformar a conversa em sermão.
Talvez nessa escuta você descubra muito mais sobre o mundo do seu filho e sobre o lugar que você ocupa nele.
E talvez seja justamente aí que comece uma conversa que você estava tentando ter há muito tempo.
Com carinho,
Fernanda Gracioli
Leve Aconchego
🌿“Por relações que acolhem, orientam e ajudam nossos filhos a crescer com autonomia, responsabilidade e propósito.”
— Leve Aconchego
*Link para acessar aos estudos citados https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3075496/