Há alguns dias marquei uma reunião na escola do meu filho.
O boletim dele é excelente. Não havia nenhuma reclamação, nenhuma advertência, nenhuma dificuldade acadêmica. Ainda assim, senti vontade de conversar com a coordenação.
Confesso que fiquei surpresa com a reação.
Nos primeiros minutos percebi um certo estranhamento. A coordenadora parecia tentar descobrir qual era o problema que justificava aquela reunião. Era como se existisse uma pergunta silenciosa no ar:
“Se ele está indo tão bem, por que vocês marcaram uma reunião?”
E a resposta era muito simples.
Porque notas nunca foram a única coisa que me interessa.
Eu queria saber como ele está vivendo a escola quando eu não estou por perto.
Como participa das aulas.
Como reage quando encontra dificuldades.
Se costuma ajudar os colegas.
Se procura ficar sozinho ou em grupo.
Como lida com frustrações.
Se demonstra curiosidade.
Se ri.
Se parece feliz.
Em outras palavras, eu queria conhecer um pouco mais da pessoa que ele está se tornando.
Saí daquela reunião pensando em uma pergunta que não saiu mais da minha cabeça.
Quando foi que aprendemos que adolescentes não precisam mais dos pais?
Quando nossos filhos são pequenos, queremos saber absolutamente tudo.
Perguntamos como foi o recreio, quem brincou com eles, qual foi a comida do almoço, se caíram, se choraram, se fizeram um desenho bonito.
Sabemos o nome dos amigos, dos professores, dos personagens favoritos, das brincadeiras inventadas e até da cor do copo que preferem usar.
Mas basta entrarem na adolescência para algo curioso acontecer.
Sem perceber, muitos de nós começamos a recuar.
Passamos a perguntar menos.
A acompanhar menos.
A conhecer menos.
Como se crescer significasse não precisar mais de pais atentos.
Como se autonomia fosse sinônimo de distanciamento.
E talvez essa seja uma das maiores armadilhas da parentalidade.
O paradoxo da adolescência
A adolescência é uma fase cheia de contradições.
Eles querem independência, mas continuam precisando de segurança.
Querem tomar decisões, mas ainda recorrem aos pais quando o mundo fica grande demais.
Questionam nossas opiniões, mas continuam observando atentamente nossos valores.
Fecham a porta do quarto, mas desejam encontrar alguém do outro lado quando decidirem abri-la.
É justamente essa contradição que costuma confundir os adultos.
Interpretamos o movimento natural de busca por autonomia como um pedido de afastamento.
Mas são coisas completamente diferentes.
Autonomia não significa abandono.
Significa aprender a caminhar sabendo que existe uma base segura para onde sempre será possível voltar.
O que a ciência nos mostra
A neurociência tem demonstrado que a adolescência não representa o fim do desenvolvimento infantil, mas o início de uma das maiores transformações cerebrais da vida.
Durante essa fase acontece uma intensa reorganização do cérebro.
Áreas relacionadas às emoções, ao prazer, à busca por novidades e ao reconhecimento social tornam-se extremamente ativas. Ao mesmo tempo, o córtex pré-frontal responsável pelo planejamento, controle de impulsos, tomada de decisões e avaliação de consequências ainda está em pleno desenvolvimento e continuará amadurecendo até aproximadamente os 25 anos de idade.
Isso significa que nossos adolescentes são capazes de pensar de forma brilhante em muitos momentos e, ainda assim, agir impulsivamente em outros.
Não porque sejam irresponsáveis.
Mas porque seus cérebros ainda estão aprendendo a integrar emoção, razão e experiência.
Ao mesmo tempo, há algo que poucas pessoas comentam.
Na adolescência, a opinião dos pares ganha um peso enorme. O cérebro passa a ser muito sensível à aceitação social, ao pertencimento e ao medo da exclusão.
É exatamente por isso que essa fase pode trazer tantas inseguranças.
E é justamente por isso que a presença dos pais continua sendo um dos maiores fatores de proteção conhecidos pela ciência.
Não uma presença controladora.
Mas uma presença emocionalmente disponível.
Aquela que comunica:
“Você pode explorar o mundo. Eu continuo aqui.”
A teoria do apego nunca falou apenas sobre bebês
Quando ouvimos falar em apego seguro, quase sempre pensamos em crianças pequenas.
Mas o apego não termina aos cinco anos.
Nem aos dez.
Nem aos quinze.
A necessidade humana de ter uma base segura nos acompanha durante toda a vida.
A diferença é que, na adolescência, essa base muda de forma.
Eles já não precisam que amarremos seus sapatos.
Precisam que saibamos escutar suas dúvidas sem ridicularizá-las.
Já não querem nossa opinião sobre a roupa que vão vestir.
Mas talvez estejam desesperadamente esperando que alguém os ajude a organizar o caos que sentem por dentro.
Conhecer continua sendo uma forma de amar
Talvez o maior risco da adolescência não seja a rebeldia.
Talvez seja a distância silenciosa.
Aquela que vai sendo construída aos poucos.
Primeiro deixamos de perguntar sobre a escola.
Depois já não sabemos quais músicas eles escutam.
Não conhecemos mais seus influenciadores favoritos.
Ignoramos os jogos que jogam.
Não sabemos quais são seus medos, seus sonhos, suas referências ou suas preocupações.
Até que um dia muitos pais dizem, com tristeza:
“Parece que moro com um estranho.”
Mas estranhos não surgem de um dia para o outro.
A distância quase sempre é construída em pequenos silêncios.
Permanecer curioso é um ato de cuidado
Manter proximidade com um adolescente exige investimento.
Exige atravessar muitos “aham”.
Muitos “sei lá”.
Muitos “nada”.
Exige entender que nem toda conversa começa quando fazemos uma pergunta.
Às vezes ela começa ouvindo, sem reclamar, a música que ele insiste em colocar no carro.
Outras vezes nasce durante um lanche, uma caminhada, uma viagem ou enquanto lavam a louça juntos.
Também exige aprender a fazer perguntas melhores.
Em vez de:
“Foi legal a escola?”
Talvez experimentar:
“Qual foi a parte mais interessante do seu dia?”
Ou:
“Se eu tivesse assistido às suas aulas hoje, o que mais teria chamado minha atenção?”
Perguntas abertas contam histórias.
Perguntas fechadas encerram conversas.
Também precisamos estar preparados para ouvir opiniões diferentes das nossas.
A adolescência é justamente o período em que eles experimentam ideias, constroem identidade e testam valores.
Se cada discordância virar um sermão, eles aprenderão que pensar diferente é perigoso.
E deixarão de compartilhar.
Eles ainda precisam de nós
Talvez não para resolver todos os problemas.
Nem para decidir todas as escolhas.
Mas para continuar sendo um porto seguro.
Pais que permanecem curiosos.
Interessados.
Disponíveis.
Pais que conhecem os nomes dos amigos, as músicas preferidas, os sonhos, os medos e até os memes que fazem seus filhos rirem.
Porque presença não é controle.
É vínculo.
É dizer todos os dias, mesmo sem palavras:
“Eu continuo interessado em conhecer quem você está se tornando.”
Talvez o maior erro da nossa geração tenha sido acreditar que, justamente quando o mundo dos filhos se torna mais complexo, eles precisam de menos pais.
Acredito exatamente no contrário.
É justamente quando eles começam a caminhar sozinhos que mais precisam ter a certeza de que, ao olhar para trás, ainda encontrarão alguém caminhando ao lado deles.
O Pai que nunca deixa de acompanhar
Enquanto escrevia este texto, uma pergunta continuava ecoando em meu coração.
Se nós, como pais, somos chamados a refletir o caráter de Deus, então talvez devêssemos fazer outra pergunta:
Como Deus se relaciona com Seus filhos quando eles crescem?
Porque, se existe alguém que respeita nossa autonomia sem abandonar Sua presença, esse alguém é o próprio Deus.
Em nenhum momento das Escrituras encontramos um Pai que deixa de se interessar pela vida de Seus filhos porque eles amadureceram.
Ao contrário.
Quanto mais caminhamos pela vida, mais percebemos o quanto Ele permanece presente.
Ele acompanha nossas alegrias e nossos medos.
Conhece nossas dúvidas antes mesmo que encontremos coragem para verbalizá-las.
Celebra nossos acertos, corrige nossos caminhos quando necessário e continua oferecendo graça quando falhamos.
Ele nunca confunde liberdade com abandono.
Desde o jardim do Éden, Deus permite que o ser humano faça escolhas reais. Escolhas que, muitas vezes, caminham na direção oposta da Sua vontade. Ainda assim, Sua resposta nunca foi a indiferença.
Foi a presença.
Às vezes uma presença que consola.
Outras vezes uma presença que confronta.
Mas sempre uma presença.
Penso que esse talvez seja um dos maiores desafios da parentalidade na adolescência.
Nossos filhos começam a tomar decisões próprias.
Formam opiniões que podem ser diferentes das nossas.
Experimentam novos interesses, novas amizades, novos sonhos.
E nossa tendência pode ser tentar controlar cada passo ou, no extremo oposto, acreditar que agora eles já não precisam mais de nós.
Mas Deus não faz nenhuma dessas coisas conosco.
Ele não controla cada escolha, mas também nunca deixa de caminhar ao nosso lado.
Que extraordinário modelo de educação!
Um Pai que oferece liberdade sem retirar o amor.
Que corrige sem humilhar.
Que orienta sem manipular.
Que permanece disponível mesmo quando escolhemos caminhos diferentes daqueles que Ele desejaria para nós.
Talvez seja exatamente isso que nossos adolescentes mais precisem.
Não de pais que vigiem todos os seus passos.
Nem de pais que desapareçam porque “eles já cresceram”.
Mas de pais cuja presença seja tão constante que eles saibam, mesmo nos dias em que quiserem caminhar sozinhos:
“Se eu precisar voltar, meus pais ainda estarão lá.”
Há um texto que sempre me emociona.
O Salmo 139 descreve um Deus que conhece profundamente Seus filhos.
“Senhor, tu me sondas e me conheces. Sabes quando me assento e quando me levanto; de longe percebes os meus pensamentos… Antes mesmo que a palavra me chegue à língua, tu já a conheces inteiramente.” (Salmo 139:1-4)
Não é um Deus distante.
É um Pai atento.
Um Pai interessado.
Um Pai que conhece detalhes.
Um Pai presente.
Talvez seja esse o retrato de parentalidade que Deus deseja formar em nós.
Pais que conhecem.
Pais que observam.
Pais que permanecem curiosos sobre o universo dos filhos.
Pais que continuam fazendo perguntas, não para controlar, mas porque amar também é desejar conhecer.
Jesus também nos apresenta essa imagem quando conta a parábola do filho pródigo (Lucas 15:11-32).
Aquele pai não impediu o filho de partir.
Mas também nunca deixou de esperá-lo.
Ele respeitou sua liberdade sem romper o vínculo.
E, quando o filho voltou, encontrou exatamente o que sempre existiu:
Um porto seguro.
Talvez seja essa uma das mais belas imagens da parentalidade.
Criar filhos para que ganhem autonomia, sem jamais perderem a certeza de que existe um lugar para onde sempre poderão voltar.
Talvez seja isso que Deus faça conosco todos os dias.
E talvez seja isso que Ele esteja nos ensinando a fazer com nossos filhos.
E por aí, como você tem vivido a adolescência do seu filho? Tem conseguido ser presença? Tem conseguido conversar com seus filhos? Me conta nos comentários.
Com carinho,
Fernanda Gracioli
Leve Aconchego
“A autonomia nunca foi, para Deus, um motivo para diminuir Sua presença. Se somos chamados a refletir Seu caráter, talvez o crescimento dos nossos filhos também não deva diminuir a nossa.”
O universo adolescente tem se mostrado especialmente desafiante. As contradições apresentadas pela fase mexem com o coração.
A frustrações do mundo mora em meu coração por não conseguir sintonizar na mesma estação que a delas.
Esse universo adolescente, que também é novo para mim, apresenta desafios que muitas vezes parecem intransponíveis.
As alterações de humor sem qualquer controle me deixam ainda mais perdido.
As expectativas frustradas parecem se acumular de ambos os lados e o chão comum é coisa que só ouço falar.
Tenho aprendido a ancorar meu coração nas verdades biblicas e no apoio conjugal.
Até que aprendam a lidar com o novo mundo entendi que so preciso estar aqui em amor, sem perder a cabeça, por mais difícil que pareça.
É isso aí, o mais importante nesta fase é estar disponível e disposto a amar, apesar de tudo…
Linda reflexão que o Senhor em sua infinita misericórdia continue nos dando sabedoria de como ensinar educar dentro dos princípios da palavra de Deus
Amém!!
Que texto maravilhoso Fernanda.
Deus continue abençoando grandemente sua vida.cada dia sabedoria.
Para mim foi um baita aprendizado.
Obrigada
Excelente reflexão, chamando atenção para refletir nossos comportamentos hoje, agora ! Ainda há tempo de tomarmos atitudes corretas mesmo que seja com os netos! Parabéns Fer. ❤️