Esses dias, meu filho chegou em casa contando sobre uma situação que aconteceu na escola.

Um aluno teria usado uma fotografia real de outra pessoa para criar, com inteligência artificial, uma imagem de nudez e depois divulgado esse conteúdo para o grupo de amigos.

A escola tomou uma medida disciplinar. E, como mãe e educadora parental, uma pergunta ficou na minha cabeça:

E depois?

O que os outros adolescentes aprenderam com essa situação?

Eles conversaram sobre o que aconteceu?

Entenderam por que aquilo é tão grave?

Sabem que uma imagem criada por inteligência artificial pode causar consequências reais na vida de uma pessoa?

Sabem que produzir, compartilhar ou divulgar determinados conteúdos pode trazer consequências jurídicas?

E, principalmente: sabem o que fazer se receberem uma imagem assim?

Foi aí que pensei que talvez essa conversa não pudesse ficar restrita àquele aluno, àquela turma ou àquela escola.

Porque o problema é muito maior.

“Mas é só uma imagem criada por IA…”

Talvez essa seja justamente uma das primeiras conversas que precisamos ter com nossos adolescentes.

Uma imagem pode ser falsa.

Mas a violência e as consequências podem ser muito reais.

Imagine descobrir que alguém pegou uma fotografia sua uma foto que você postou, uma foto tirada por um amigo, uma foto que estava em algum lugar da internet e usou uma ferramenta de inteligência artificial para criar uma imagem sua nua.

Agora imagine essa imagem circulando entre pessoas que você conhece.

Na escola.

No grupo de WhatsApp.

No Instagram.

Entre amigos.

Talvez você saiba que aquela imagem é falsa.

Mas será que todo mundo que a recebe vai saber?

E mesmo sabendo, será que isso impede o constrangimento, a vergonha, os comentários, os olhares e o sofrimento?

É por isso que precisamos tomar cuidado quando usamos palavras como “brincadeira”, “zoação” ou “pegadinha”.

Nem tudo que é feito por adolescentes pode ser tratado como uma brincadeira de adolescente.

A inteligência artificial trouxe uma conversa nova para dentro da nossa casa

Nós, pais, já estávamos tentando aprender a conversar sobre redes sociais, exposição, pornografia, cyberbullying, sexting, nudes e tantos outros desafios.

Agora temos mais uma camada nessa conversa: a inteligência artificial.

E ela chegou muito rápido.

Talvez mais rápido do que muitos de nós conseguimos acompanhar.

Hoje, existem ferramentas capazes de alterar imagens e produzir conteúdos extremamente realistas.

Isso significa que aquela antiga orientação:

“Não mande fotos íntimas.”

continua importante, mas já não é suficiente.

Precisamos conversar também sobre o que alguém pode fazer com uma fotografia que nem sequer era íntima.

Precisamos ensinar nossos filhos que uma fotografia não é uma autorização para manipulação.

Que compartilhar uma imagem de alguém sem consentimento pode causar danos.

Que receber uma imagem não dá direito de encaminhá-la.

E que o fato de algo estar “só no celular” não significa que não tenha consequências no mundo real.

Mas e a parte jurídica?

Essa talvez seja uma das conversas que mais precisamos ter com nossos adolescentes.

Não para assustá-los.

Não para dizer: “Olha o que pode acontecer com você!”

Mas para ajudá-los a compreender que liberdade também significa responsabilidade.

A legislação brasileira já possui mecanismos para lidar com situações envolvendo divulgação não autorizada de imagens íntimas.

E houve uma mudança importante recentemente.

Em 2026, a Lei nº 15.487 alterou o Estatuto da Criança e do Adolescente para incluir expressamente determinadas situações envolvendo a manipulação ou geração, inclusive por inteligência artificial, de representações de crianças e adolescentes em conteúdos de violência sexual.

Ou seja: a discussão jurídica sobre imagens produzidas artificialmente não é uma preocupação distante. Ela já está acontecendo na nossa legislação.

E aqui existe uma informação importante para nossos filhos entenderem:

ser menor de idade não significa que “não dá nada”.

Quando uma pessoa com menos de 18 anos pratica uma conduta que a legislação considera crime ou contravenção, estamos diante do que o ECA chama de ato infracional.

O adolescente não responde criminalmente como um adulto, mas pode estar sujeito às medidas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente.

Dependendo do caso, podem existir medidas como advertência, obrigação de reparar o dano, prestação de serviços à comunidade, liberdade assistida, semiliberdade ou internação.

É claro que não significa que toda situação envolvendo uma imagem falsa terá automaticamente esse desfecho.

A análise jurídica depende do que aconteceu, de quem está envolvido, da idade das pessoas, do conteúdo produzido, da forma como foi compartilhado e de várias outras circunstâncias.

Mas essa complexidade não diminui a importância da conversa.

Pelo contrário.

Nossos filhos precisam saber que o ambiente digital também tem regras.

“Eu só encaminhei…”

Essa frase merece uma conversa especial.

Imagine que um adolescente receba no grupo uma imagem íntima falsa de uma colega.

Ele não criou.

Não pediu.

Não teve a ideia.

Só recebeu.

E encaminhou.

“Foi só para os meus amigos.”

Mas agora a imagem chegou a mais cinco pessoas.

Que mandaram para outras.

Que mandaram para outras.

E, de repente, algo que poderia ter parado em uma tela passou a circular por toda a escola.

Por isso, uma das orientações mais importantes que podemos dar é:

Se você receber uma imagem íntima de alguém, não encaminhe.

Não compartilhe.

Não salve para mostrar depois.

Não faça piada.

Não entre na brincadeira.

Procure um adulto de confiança e peça ajuda para saber como agir.

Isso também é proteger.

E se for meu filho que recebeu?

Essa é uma pergunta que precisamos conseguir responder antes de o problema acontecer.

Porque talvez seu filho um dia receba uma imagem dessas.

E a primeira reação dele pode ser apagar.

Ou encaminhar para um amigo.

Ou ficar com medo de contar.

Ou pensar:

“Se eu contar, minha mãe vai pegar meu celular.”

É aqui que a nossa relação com nossos filhos faz toda diferença.

Precisamos construir uma casa onde eles saibam:

“Se alguma coisa estranha, assustadora ou errada acontecer na internet, eu posso procurar meus pais.”

Isso não significa que não haverá consequência.

Significa que o medo da consequência não pode ser maior do que a segurança de pedir ajuda.

E a escola? E os pais? E a sociedade?

Foi justamente essa situação que me fez pensar em uma coisa:

Talvez estejamos fazendo a pergunta errada.

Quando acontece algo assim, é muito fácil perguntar:

“Onde estavam os pais?”

Sim, os pais têm responsabilidade.

Muita.

Somos nós que precisamos conversar, acompanhar, estabelecer limites e ensinar nossos filhos.

Mas será que podemos colocar toda essa responsabilidade nas famílias?

Eu acredito que não.

Uma criança e um adolescente não são educados apenas dentro de casa.

Eles são educados também pela escola, pelos amigos, pela igreja, pelos profissionais que os acompanham, pelos conteúdos que consomem, pelas redes sociais e pela sociedade em que vivem.

Por isso, quando falamos em proteção, precisamos falar em rede.

A escola pode fazer muito mais do que punir

Uma medida disciplinar pode ser necessária.

Mas talvez ela não precise ser o ponto final.

Pode ser o começo de uma conversa.

Sem expor o aluno envolvido.

Sem identificar a vítima.

Sem transformar o episódio em espetáculo.

A escola pode aproveitar situações reais para conversar com os adolescentes sobre:

Isso é educação para a vida.

E talvez seja justamente uma das maiores oportunidades da escola: transformar um problema em aprendizado coletivo.

E os pais também precisam de ajuda

Existe uma coisa que nós, pais, precisamos admitir:

não sabemos tudo.

Nossos filhos estão crescendo em um mundo digital que muda muito rápido.

Às vezes eles conhecem uma ferramenta que nós nunca ouvimos falar.

Eles sabem como funciona um aplicativo que nós mal conseguimos abrir.

E podem estar vivendo situações que nem imaginamos.

Por isso, também vejo a escola como uma importante facilitadora de informação para as famílias.

Uma palestra.

Uma roda de conversa.

Um material explicativo.

Uma indicação de profissionais e projetos sérios.

Uma conversa sobre os riscos atuais.

Tudo isso pode ajudar os pais a chegarem em casa mais preparados para conversar com seus filhos.

Porque não adianta dizer:

“Converse com seu filho sobre isso.”

Precisamos também ajudar os pais a descobrir como conversar.

Não precisamos esperar acontecer com o nosso filho

Talvez essa seja a parte mais importante de tudo.

Não precisamos esperar que nossa filha tenha uma imagem íntima divulgada.

Não precisamos esperar que nosso filho receba uma imagem e não saiba o que fazer.

Não precisamos esperar uma denúncia, uma crise na escola ou uma situação de sofrimento para começar a conversar.

Podemos começar agora.

No caminho para a escola.

Durante o jantar.

Depois de assistir a uma notícia.

Quando aparecer uma situação em uma série.

Quando nossos filhos perguntarem sobre inteligência artificial.

Quando ouvirmos alguma história na escola.

Não precisa ser uma palestra de duas horas.

Às vezes começa com uma pergunta simples:

“Você já ouviu falar que existem pessoas usando inteligência artificial para criar imagens falsas de outras pessoas?”

E então escutamos.

Sem sermão.

Sem pânico.

Sem transformar toda conversa em uma ameaça.

Educar também é preparar para aquilo que ainda não aconteceu

Eu gosto muito da ideia de que educação não é apenas corrigir o comportamento depois que ele acontece.

Educação também é dar repertório antes.

É ajudar nossos filhos a reconhecerem uma situação perigosa.

É ensinar que eles podem dizer não.

É ensinar que podem pedir ajuda.

É ensinar que não devem participar da exposição de outra pessoa.

É ensinar que uma tela não elimina a responsabilidade.

E é ensinar que, quando alguém é vítima, a nossa atitude não deve ser assistir, compartilhar ou fazer piada.

Deve ser proteger.

Talvez a pergunta que precisamos fazer não seja apenas:

“Como faço para meu filho não ser vítima?”

Mas também:

“Estou ensinando meu filho a nunca se tornar parte da violência contra outra pessoa?”

Porque queremos filhos que saibam se proteger.

Mas também queremos filhos que saibam proteger.

E isso não é responsabilidade apenas dos pais.

É responsabilidade da escola.

Da rede de proteção.

Dos profissionais.

Das plataformas.

Da sociedade.

É responsabilidade de todos nós.

Para terminar…

A inteligência artificial consegue criar uma imagem em poucos segundos.

Mas ensinar nossos filhos a respeitar a dignidade de outra pessoa continua sendo um trabalho profundamente humano.

E esse trabalho não começa quando o problema aparece.

Começa muito antes.

Por aqui, acredito que educar é justamente isso: acolher, orientar, encorajar e preparar nossos filhos para fazer escolhas responsáveis em um mundo que nem sempre será simples.

E, quando o mundo muda, nossa responsabilidade como adultos é mudar também a forma como educamos. 🌿

Com carinho,
Fernanda Gracioli
Leve Aconchego

🌿Educar antes é também proteger.“

— Leve Aconchego

Este texto tem caráter educativo e informativo. As consequências jurídicas dependem das circunstâncias concretas de cada caso e a análise de uma situação específica deve ser feita por profissional habilitado.

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