Existe uma frase muito conhecida sobre maternidade que sempre me causou desconforto:
“Quando nasce um filho, nasce uma mãe.”
E talvez exista beleza nela.
Mas existe também uma realidade pouco falada:
nem sempre a mãe que nasce está preparada para o filho que recebe.
Porque alguns filhos chegam trazendo desafios, intensidades e necessidades que ultrapassam aquilo que imaginávamos conhecer sobre infância.
Por aqui, além do TDA, também convivemos com as altas habilidades. E eu preciso confessar: durante muito tempo, muitas características do meu filho passaram despercebidas para mim.
Não porque eu não observasse.
Mas porque eu simplesmente não tinha repertório para compreender aquilo que via em sua totalidade.
Só quando comecei a estudar profundamente sobre neurodivergência é que muitas peças começaram a se encaixar.
E talvez uma das maiores descobertas tenha sido entender que altas habilidades vão muito além da ideia romantizada de “uma criança muito inteligente”.
Porque, na prática, estamos falando de um cérebro que funciona de maneira intensa, acelerada e profundamente sensível.
O cérebro com altas habilidades não é apenas “mais inteligente”
Existe um equívoco muito comum de imaginar que crianças e adolescentes com altas habilidades vivem em constante facilidade.
Mas a realidade costuma ser muito mais complexa.
O cérebro dessas crianças e adolescentes frequentemente apresenta:
- pensamento acelerado;
- alta capacidade de associação;
- curiosidade intensa;
- percepção ampliada do ambiente;
- hipersensibilidade emocional;
- PROFUNDIDADE nos questionamentos;
- necessidade constante de estímulo mental;
- grande senso de justiça;
- percepção emocional aguçada;
- hiperfoco em temas de interesse.
Muitas vezes, elas percebem nuances emocionais, sociais e cognitivas que outras crianças e adolescentes da mesma idade ainda não conseguem compreender ou acompanhar.
E isso pode gerar um sentimento profundo de inadequação nelas.
Porque enquanto cronologicamente são crianças ou adolescentes, emocionalmente e intelectualmente podem experimentar conflitos muito mais complexos, que fogem da sua idade cronológica.
É como se o cérebro estivesse constantemente “ligado”.
-Pensando.
-Associando.
-Questionando.
-Sentindo.
E essa intensidade não fica apenas na mente.
Ela frequentemente atravessa o corpo.
Quando o emocional também impacta o físico
Uma das coisas que mais me surpreendeu quando comecei a estudar sobre altas habilidades foi compreender o quanto o corpo pode responder à intensidade emocional dessas crianças e adolescentes.
Em muitos casos, existe uma relação importante entre hipersensibilidade, estresse interno constante e manifestações físicas recorrentes.
Não significa que toda enfermidade esteja ligada às altas habilidades.
Mas existe, sim, uma tendência maior a somatizações e sensibilidades físicas em algumas crianças/adolescentes neurodivergentes.
Por aqui, por exemplo, começaram a fazer sentido:
- as crises frequentes de rinite;
- sinusites recorrentes;
- infecções de ouvido;
- cansaço intenso;
- crises repetitivas de disidrose;
- dificuldade para “desligar” mentalmente;
- tensão corporal;
- múltiplas alergias alimentares e de pele.
Porque crianças e adolescentes com altas habilidades frequentemente vivem em estado de hiperestimulação.
Elas absorvem muito do ambiente.
Sentem intensamente.
Pensam intensamente.
E muitas vezes não conseguem regular tudo isso sozinhas.
O desafio social das crianças e adolescentes com altas habilidades
Existe também um aspecto pouco falado:
a solidão emocional.
Nem sempre é fácil para uma criança ou um adolescente lidar com a sensação de pensar diferente dos colegas.
Muitas vezes elas:
- sentem dificuldade de pertencimento;
- têm interesses incomuns para a idade;
- frustram-se com facilidade;
- sofrem por excesso de autocobrança;
- desenvolvem ansiedade;
- tentam mascarar características para se encaixar;
- sentem-se “estranhas”;
- possuem grande sensibilidade às rejeições sociais.
E talvez uma das tarefas mais delicadas para nós, pais, seja ajudá-las a compreender que:
ser diferente não significa estar errado.
Elas não precisam diminuir quem são para caber nos espaços.
Mas também precisam aprender e compreender que nem todas as pessoas enxergam o mundo da mesma maneira que elas e esta tudo bem.
E isso exige desenvolvimento socioemocional constante.
O que pode ajudar essas crianças e adolescentes?
Depois de muita busca, estudo e prática dentro da nossa própria realidade, fui percebendo que algumas ferramentas fazem enorme diferença.
1. Nomear emoções
Crianças e adolescentes intensos precisam aprender a reconhecer o que sentem.
Muitas vezes elas vivem emoções enormes sem conseguir organizá-las internamente.
Ensinar vocabulário emocional ajuda a reduzir explosões, ansiedade e sensação de confusão interna.
2. Rotinas de desaceleração
O cérebro acelerado também precisa aprender a descansar.
Momentos de pausa são fundamentais:
- reduzir excesso de telas;
- contato com natureza;
- atividades sensoriais;
- leitura tranquila;
- silêncio;
- música;
- exercícios respiratórios;
- momentos sem estímulo constante.
3. Desenvolvimento socioemocional
Nem sempre inteligência emocional acompanha inteligência cognitiva.
Por isso, essas crianças e adolescentes precisam de ajuda para aprender:
- tolerância à frustração;
- flexibilidade;
- empatia;
- habilidades sociais;
- manejo da ansiedade;
- resolução de conflitos;
- autorregulação emocional.
4. Acompanhamento profissional
Psicólogos, terapeutas ocupacionais, neuropsicólogos e profissionais especializados podem ajudar tanto a criança ou o adolescente quanto a família a compreender melhor o funcionamento neurodivergente.
E isso faz diferença não apenas no presente, mas no futuro emocional dessa criança ou adolescente.
5. Ambientes onde ela possa existir sem mascaramento
Talvez uma das maiores necessidades dessas crianças e adolescentes seja encontrar espaços seguros onde não precisem esconder quem são.
Ambientes onde possam:
- perguntar;
- criar;
- sentir;
- se expressar;
- existir sem medo de parecer “demais”.
Pais também precisam aprender
Talvez uma das maiores lições da parentalidade neurodivergente seja entender que amor, sozinho, nem sempre basta.
Nós precisamos aprender.
Precisamos estudar.
Buscar informações.
Reconhecer limites.
Pedir ajuda.
Construir rede de apoio.
E principalmente estarmos disponíveis e acessíveis a escutar nossos filhos.
Porque nossos filhos não precisam de pais perfeitos.
Precisam de adultos disponíveis para compreendê-los profundamente.
E talvez parentalidade seja exatamente isso:
crescer junto com os filhos que recebemos.
Mesmo quando eles nos levam por caminhos que jamais imaginamos percorrer.
Com carinho,
Fernanda Gracioli
Leve Aconchego
🌿“Acolher a singularidade dos nossos filhos também é ajudá-los a transformar intensidade em potência, sem fazer da diferença um peso para existir.”
— Leve Aconchego