Conviver com uma criança neurodivergente é, muitas vezes, viver entre dois extremos: o desejo intenso de proteger e a necessidade urgente de preparar.

Hoje pela manhã, vivi uma situação simples — mas profundamente significativa — com um de meus filhos.

Por aqui, temos crianças com déficit de atenção. E grande parte da nossa rotina gira em torno de ajudá-los a construir estratégias para lidar com as dificuldades que acompanham essa neurodivergência.

Uma dessas estratégias são as listas de verificação.

Porque crianças com TDA(H) frequentemente enfrentam dificuldades relacionadas à memória operacional, organização e manutenção da atenção. Não basta “lembrar”. Muitas vezes, elas realmente acreditam que fizeram tudo o que precisavam fazer.

Antes de sair para a aula de natação, perguntei várias vezes:
— Está tudo arrumado?
E a resposta foi:
— Sim.

Ao chegarmos, veio a descoberta: a touca e o óculos haviam sido esquecidos, itens esses básicos, para que a aula aconteça.

Na primeira vez que isso aconteceu, eu resolvi por ela. Conversei com o professor, pedi itens emprestados e tentei evitar qualquer desconforto.

Hoje, porém, escolhi agir diferente.

Pedi que ela mesma explicasse ao professor o que havia acontecido.

E eu não vou romantizar esse momento:
foi doloroso.

Vi a vergonha nos olhos dela.
Vi a tentativa de fugir daquela situação.
Vi o desconforto estampado em cada gesto.

E, ainda assim, permaneci ali.

Não por falta de amor.
Mas justamente por amor.

Existe uma diferença muito importante entre acolher uma neurodivergência e incapacitar uma criança por causa dela.

Muitas vezes, na tentativa de proteger nossos filhos do sofrimento, acabamos impedindo que eles desenvolvam habilidades fundamentais para a vida adulta.

Sim, o TDA(H) é real.
As dificuldades são reais.
O impacto emocional também é real.

Mas o diagnóstico não pode ser apenas uma justificativa permanente para tudo.
Ele precisa se tornar um ponto de partida para construção de ferramentas.

Nosso papel como pais não é exigir perfeição.
É ensinar caminhos.

É ajudar a criança a perceber:
“Meu cérebro funciona de uma maneira diferente. Então eu preciso de estratégias diferentes.”

Listas.
-Alarmes.
-Rotinas visuais.
-Organização por etapas.
-Treino de responsabilidade.
-Consequências proporcionais e seguras.

Tudo isso faz parte do processo.

E talvez uma das tarefas mais difíceis da parentalidade seja suportar o desconforto de ver nossos filhos frustrados sem correr imediatamente para salvá-los.

Porque haverá um dia em que nós não estaremos presentes para organizar suas mochilas, resolver seus esquecimentos ou falar por eles.

E é justamente agora, dentro do ambiente seguro do amor, que eles precisam aprender.

Aprender que esquecer algo traz consequências.
Aprender que erros podem ser corrigidos.
Aprender que sentir vergonha não significa ser incapaz.
Aprender que pedir ajuda também faz parte da vida.

O professor, hoje, foi acolhedor. Trouxe uma touca e um óculos emprestados. A aula aconteceu.

Mas o maior aprendizado desta manhã, talvez não tenha sido sobre natação.

Talvez tenha sido sobre autonomia.

Sobre responsabilidade.

Sobre construção de recursos emocionais.

Sobre uma mãe tentando equilibrar proteção e preparo.

Porque amar uma criança neurodivergente não é apenas diminuir os impactos do mundo sobre ela.
É também ajudá-la a construir ferramentas para atravessar esse mundo com mais segurança, autonomia e dignidade.

E isso, muitas vezes, dói primeiro na gente.

Me conta como tem sido lidar com esses desafios por aí?

Com carinho,
Fernanda Gracioli
Leve Aconchego

🌿 “O amor que protege também precisa ser o amor que prepara.”
Leve Aconchego

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