Hoje, enquanto caminhava pela Praça Universitária, em Goiânia, vivi uma cena simples — mas que ficou profundamente ecoando dentro de mim.

Havia um grupo de estudantes reunidos ao redor de uma das obras da praça. Uma professora, acompanhada de uma auxiliar, conduzia uma explicação sobre aquela arte, tentando transformar uma manhã comum de sexta-feira em uma experiência viva, sensível e diferente da rotina tradicional da sala de aula.

Devia haver entre vinte e vinte e cinco estudantes ali.

Mas, conforme me aproximei, comecei a observar algo que me atravessou com tristeza: apenas dois estudantes realmente prestavam atenção no que ela dizia.

Os demais estavam mergulhados em celulares, em conversas paralelas ou em pequenos subgrupos que se formavam ao redor da obra — mas não ao redor do conhecimento.

Enquanto aquela professora falava com entusiasmo, curiosidade e dedicação, parecia que suas palavras precisavam disputar espaço com um mundo inteiro de distrações instantâneas.

E aquilo me fez pensar profundamente.

Quantas vezes adultos têm sentido que estão falando… mas não sendo ouvidos?
Quantas vezes professores precisam competir com algoritmos para conseguir alguns minutos de atenção?
Quantas vezes o conhecimento perdeu espaço para estímulos rápidos, superficiais e constantes?

Confesso que meu coração foi tomado por uma tristeza silenciosa.

Porque eu conseguia enxergar o esforço daquela professora.

Talvez ela tenha acordado cedo naquela sexta-feira pensando em como tornar a aula mais interessante.
Talvez tenha escolhido cuidadosamente aquele passeio acreditando que a experiência ao vivo despertaria curiosidade, presença e encantamento.
Talvez ela realmente ame ensinar.

E, ainda assim, parecia que quase ninguém estava disponível emocionalmente para receber aquilo que ela oferecia.

Mas essa reflexão vai muito além de uma cena isolada.

Ela fala sobre o tempo em que estamos vivendo.

Uma geração cercada por estímulos

Nossas crianças e adolescentes estão crescendo em um contexto completamente diferente de qualquer outra geração anterior.

Hoje, o cérebro infantil convive diariamente com:

Pouco a pouco, a capacidade de contemplar, sustentar atenção, ouvir até o fim e mergulhar profundamente em uma experiência vai sendo enfraquecida.

E isso não acontece porque nossos filhos são “desinteressados” ou “desrespeitosos” por natureza.

Existe um ambiente inteiro moldando seus cérebros e suas relações com o mundo.

A verdade é que estamos criando uma sociedade cada vez mais acelerada e menos presente.

Uma sociedade em que tudo precisa ser:
rápido,
dinâmico,
curto,
interativo,
intenso.

E quando algo exige silêncio, escuta, observação ou paciência… muitos já não conseguem permanecer.

Mas então, o que podemos fazer?

Essa pergunta ficou comigo o resto do dia.

E acredito que a resposta não está apenas em tornar tudo mais “divertido” ou “competitivo” para prender atenção.

Talvez o caminho seja mais profundo do que isso.

Talvez precisemos reaprender, como sociedade, o valor da presença.

Precisamos ensinar crianças e adolescentes a:

E isso começa muito antes da escola.

Começa dentro de casa.

Começa nos adultos que também vivem dividindo atenção entre telas, notificações e conversas.
Começa nas refeições feitas olhando para o celular.
Começa na dificuldade que nós mesmos temos de ouvir alguém até o fim sem buscar distrações.

Porque jovens aprendem muito menos pelo discurso e muito mais pelo exemplo.

Talvez uma das perguntas mais importantes seja:
nós, adultos, ainda sabemos estar presentes?

Ainda conseguimos contemplar?
Ainda conseguimos ouvir profundamente?
Ainda conseguimos sustentar uma conversa sem recorrer ao celular?

A atenção também é construída no vínculo

Nenhuma criança desenvolve atenção saudável apenas através de cobranças.

A atenção é construída nas relações.

Ela nasce:

Talvez nossas crianças não precisem apenas de mais informações.
Talvez elas precisem de mais conexão humana.

Mais tempo de qualidade.
Mais experiências concretas.
Mais oportunidades de desacelerar.

Porque um cérebro constantemente hiperestimulado encontra dificuldade em permanecer no simples.

Sobre professores cansados e invisíveis

Também não consigo deixar de pensar em quantos educadores estão emocionalmente exaustos.

Professores que estudam, planejam, criam experiências diferentes, tentam inovar… mas frequentemente sentem que falam para alunos emocionalmente desconectados.

E isso dói.

Porque ensinar sempre foi muito mais do que transmitir conteúdo.
Ensinar é encontro.
É troca.
É presença.

Talvez uma das urgências do nosso tempo seja justamente recuperar essa capacidade de encontro humano genuíno.

Hoje, naquela praça, eu não vi apenas estudantes distraídos.

Eu vi um retrato silencioso do tempo em que estamos vivendo.

E saí dali me perguntando:
Como podemos ajudar nossas crianças e adolescentes a reencontrarem a capacidade de presença antes que ela se perca ainda mais?

Por aqui, sigo acreditando que o caminho começa no vínculo, na escuta e no exemplo.

Mesmo em tempos de excesso de estímulos.

E por aí?

Com carinho,
Fernanda
Leve Aconchego

🌿 “Em um mundo de distrações, educar também é ensinar presença.”
Leve Aconchego

5 respostas

  1. Fernanda,
    Obrigado pór transformar sua experiencia em uma reflexão.
    Recentemente comecei a dar aula em um colégio técnico de informática.
    O que voce viu na praça é o que acontece em sala de aula.
    Essa é a nossa realidade, a tecnologia está acabando com as novas gerações.
    Como resolver? Não sei, mas será em trabalho árduo.
    Beijos
    Daniel

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