Por aqui, uma das coisas que desejo profundamente para os meus filhos é que eles se tornem adultos independentes, resilientes e capazes de pensar por si mesmos.

Quero que saibam fazer perguntas.

Que não aceitem uma ideia simplesmente porque alguém disse que é assim.

Que sejam capazes de discordar, argumentar, pesquisar, ouvir e rever suas próprias conclusões.

Quero que aprendam a construir seus pensamentos a partir da ciência, da lógica, da história, dos conhecimentos que adquirimos ao longo da vida e, PRINCIPALMENTE, da Palavra de Deus.

Não quero criar filhos que simplesmente sigam a grande massa.

Nem que tomem decisões apenas porque “todo mundo está fazendo”.

E também não quero que confundam liberdade com fazer aquilo que desejam a qualquer custo.

Quero ajudá-los a desenvolver discernimento.

Mas existe um lado dessa escolha que é muito mais difícil do que parece:

quando ensinamos nossos filhos a pensar, precisamos estar preparados para quando eles pensarem diferente de nós.

E isso, na prática, pode ser muito difícil.

Quando os bons argumentos estão dos dois lados

Hoje foi um desses dias por aqui.

Estamos vivendo uma divergência de opiniões que já se estende por algumas semanas.

E não é uma situação em que simplesmente existe um adulto dizendo algo sensato e um adolescente fazendo birra.

O que torna tudo mais difícil é justamente o fato de existirem bons argumentos dos dois lados.

Há fundamentos naquilo que eu penso.

E há fundamentos naquilo que eles pensam.

Existem pontos que consigo compreender no argumento deles, mesmo continuando discordando.

E imagino que o mesmo aconteça do outro lado.

Só que, quando uma divergência se prolonga, o desgaste emocional começa a aparecer.

Vieram as discussões recorrentes.

O mau humor.

As alfinetadas.

A raiva.

A frustração.

E aquela sensação de que ninguém estava conseguindo sair do lugar.

Eu queria que eles compreendessem meu ponto.

Eles queriam que eu compreendesse o deles.

E, no meio disso tudo, uma coisa que começou como uma divergência de opiniões estava começando a afetar a nossa relação.

Foi depois de mais uma discussão que percebi que estávamos tentando resolver algo apenas com a nossa própria força.

E talvez aquele fosse justamente o momento de parar de tentar controlar o resultado.

Quando Deus nos lembra que não precisamos resolver tudo sozinhos

Eu orei.

E entreguei aquela situação a Deus.

Não como uma forma de fugir da responsabilidade de educar, mas justamente porque reconheço que existe uma parte dessa educação que não está sob o meu controle.

A Bíblia nos ensina sobre a importância da obediência dos filhos aos pais e também traz uma orientação muito séria para nós, pais.

Em Efésios 6, encontramos:

“Filhos, obedeçam a seus pais no Senhor, pois isso é justo. ‘Honra teu pai e tua mãe’ este é o primeiro mandamento com promessa ‘para que tudo te corra bem e tenhas longa vida sobre a terra’.”

E, logo depois, existe uma orientação igualmente importante aos pais:

“Pais, não irritem seus filhos; antes criem-nos segundo a instrução e o conselho do Senhor.”

Essas duas orientações precisam caminhar juntas.

Não posso usar a responsabilidade dos meus filhos de obedecer como uma autorização para ignorar a responsabilidade que tenho de educá-los com amor, sabedoria e temor a Deus.

E foi justamente isso que me confrontou.

Porque, naquele momento, eu percebi que estávamos com dificuldade de viver as duas coisas.

Eu desejava que houvesse respeito e obediência.

Mas também desejava que a nossa relação não fosse tomada pela irritação, pela raiva e pela frustração.

Então fiz uma oração muito simples:

“Deus, nós sabemos o que a Tua Palavra nos orienta. Mas, neste momento, estamos com dificuldade de viver isso com alegria. Se precisamos que um coração seja transformado para que consigamos obedecer àquilo que o Senhor nos pede, intervenha. Dá-nos sabedoria para saber como lidar com essa situação.”

Nem sempre precisamos vencer a discussão

Depois disso, propus uma conversa.

Não uma nova tentativa de convencer alguém de que eu estava certa.

Uma conversa para colocar o problema diante de Deus.

Sentamos.

Falamos sobre o que estava acontecendo.

Lemos a Palavra juntos.

Oramos.

E chegamos a uma conclusão que, naquele momento, foi muito mais importante do que decidir quem estava certo:

nós já conhecemos a opinião uma da outra.

Não precisávamos continuar tentando vencer aquela discussão todos os dias.

Combinamos que, quando a frustração e a raiva surgissem novamente por causa daquela divergência, pararíamos para orar e pedir a Deus sabedoria para lidar com aquilo.

Talvez o consenso ainda não tenha chegado.

Mas algo mudou.

As caras fechadas desapareceram.

A disposição para provocar uma à outra diminuiu.

O clima de batalha se desfez.

E eu me lembrei de algo que às vezes esquecemos na parentalidade:

nem todo conflito precisa ser imediatamente resolvido para que uma relação possa continuar saudável.

Criar seres pensantes também nos transforma

Eu quero filhos que saibam argumentar.

Mas preciso aceitar que eles podem construir argumentos que eu não esperava.

Quero filhos que questionem.

Mas preciso estar disposta a ouvir algumas perguntas que me incomodam.

Quero filhos que tenham autonomia.

Mas autonomia não significa concordância comigo.

Quero filhos resilientes.

E resiliência também se aprende quando descobrimos que podemos atravessar uma divergência sem destruir uma relação.

Talvez essa seja uma das partes mais difíceis de criar seres pensantes:

eles não serão apenas capazes de pensar. Eles serão capazes de pensar diferente de nós.

E isso exige de nós uma maturidade que vai muito além de ensinar conteúdos.

Precisamos ensinar nossos filhos a argumentar, mas também a ouvir.

A discordar, mas também a respeitar.

A defender uma ideia, mas também a reconhecer quando podem estar errados.

A buscar conhecimento, mas também a reconhecer os limites do próprio conhecimento.

A ter convicções, mas sem transformar convicções em arrogância.

E, principalmente, precisamos ensiná-los que nenhuma divergência de opinião é maior do que o valor de uma pessoa ou do que o vínculo que existe entre nós.

O amor é maior do que a nossa necessidade de ter razão

Talvez esse seja um dos maiores aprendizados que Deus tem me dado na maternidade:

eu não preciso vencer todas as discussões para cumprir meu papel de mãe.

Existem momentos em que educar significa sustentar um limite.

Existem momentos em que significa dizer “não”.

Existem momentos em que precisamos exercer a autoridade que Deus nos confiou.

Mas também existem momentos em que precisamos reconhecer que estamos diante de uma questão complexa, que nossos filhos cresceram, que suas capacidades de raciocínio estão se desenvolvendo e que a nossa relação precisa sobreviver às diferenças que inevitavelmente surgirão.

Naquele dia, não saímos da conversa com todas as respostas.

Saímos com algo que considero ainda mais precioso:

a decisão de não permitir que uma divergência de opiniões se transforme em uma ruptura de relacionamento.

Porque podemos pensar diferente.

Podemos discordar.

Podemos até permanecer em lados diferentes de uma questão.

E ainda assim podemos escolher a empatia.

Podemos escolher o respeito.

Podemos escolher o amor.

E podemos, juntos, colocar aquilo que não conseguimos resolver nas mãos daquele que realmente conhece todos os corações e todas as coisas.

Por aqui, continuo tentando criar filhos que pensem.

E, nesses dias em que eles pensam diferente de mim, Deus me lembra que talvez uma das coisas mais importantes que eu possa ensinar seja justamente esta:

mais importante do que ter razão é aprender a amar enquanto buscamos a verdade.

E talvez, enquanto eu ensino meus filhos a pensar, Deus esteja usando meus filhos para me ensinar a confiar.

Com carinho,
Fernanda Gracioli
Leve Aconchego

🌿“Talvez maturidade seja aprender que podemos discordar sem deixar de caminhar juntos.”

— Leve Aconchego

Author

2 respostas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *