Hoje eu quero contar uma história que, à primeira vista, poderia parecer apenas sobre uma Feira de Ciências.

Mas, para mim, foi muito mais do que isso.

Foi sobre uma menina diante de um projeto complexo, cheio de etapas, prazos, decisões, imprevistos e desafios. Foi sobre vê-la crescer enquanto fazia algo que, em alguns momentos, parecia grande demais para ela.

E foi, principalmente, sobre vê-la enfrentar uma gigante chamada timidez.

O projeto começou com uma ideia. E terminou com muito mais do que um experimento.

Tudo começou com uma curiosidade e uma pergunta.

A partir daí, vieram pesquisa, planejamento, hipóteses, materiais, testes, registros, análise dos resultados, elaboração do cartaz e, finalmente, a preparação para apresentar tudo aquilo diante de outras pessoas.

Para quem olha apenas para o resultado final, pode parecer simples.

Mas nós que acompanhamos o processo sabemos que um trabalho assim exige muito mais do que conhecimento científico.

Exige organização.

Exige planejamento.

Exige capacidade de lidar com o tempo.

Exige responsabilidade.

Exige aprender a resolver problemas.

E, principalmente, exige persistência.

Porque projetos reais raramente acontecem exatamente como imaginamos.

E ela descobriu isso na prática.

Quando foi preciso começar tudo de novo

Em determinado momento, descobrimos que a primeira ideia não poderia ser testada por causa de uma regra da Feira.

E agora?

Era preciso recomeçar.

Todo o planejamento precisava ser revisto.

A primeira reação foi de frustração.

E como não seria?

Quando investimos tempo, energia e expectativa em alguma coisa, descobrir que precisamos mudar o caminho não é fácil.

Mas existe uma aprendizagem muito importante escondida nesses momentos:

nem sempre precisamos abandonar um objetivo porque o caminho que imaginamos não funcionou.

Às vezes, precisamos apenas encontrar outro caminho.

Ela precisou exercitar a flexibilidade.

Precisou aceitar que algo que havia planejado não aconteceria daquela forma.

Precisou pensar novamente.

Reorganizar.

Recomeçar.

E isso é uma habilidade que ela levará para muito além da escola.

Porque a vida também será assim.

Haverá planos que não darão certo.

Portas que se fecharão.

Projetos que precisarão ser refeitos.

Ideias que precisarão ser modificadas.

E talvez uma das maiores competências que podemos ajudar nossos filhos a desenvolver seja justamente esta:

a capacidade de recomeçar sem interpretar o recomeço como fracasso.

“Eu quero desistir.”

Essa frase apareceu algumas vezes.

E eu entendo.

Quando uma tarefa fica longa, cansativa e desafiadora, desistir parece uma solução muito tentadora.

Mas persistência não significa nunca querer desistir.

Persistência significa poder sentir vontade de desistir e, ainda assim, avaliar: será que eu realmente quero parar ou estou apenas cansada, frustrada ou com medo?

Essa diferença é enorme.

Ela não precisava ser uma criança que nunca se cansasse.

Não precisava estar motivada todos os dias.

Não precisava amar todas as etapas.

Precisava aprender que algumas coisas importantes exigem atravessar justamente os momentos em que não estamos com vontade de continuar.

E, pouco a pouco, ela continuou.

Uma etapa de cada vez.

Uma nova rotina, novos prazos e mais responsabilidade

Outra parte que me deixou muito orgulhosa foi acompanhar a maneira como ela precisou reorganizar sua rotina.

Cada etapa tinha um prazo.

Havia coisas que precisavam ser feitas antes que outras pudessem acontecer.

Era necessário lembrar, organizar, pesquisar, produzir e entregar.

E isso trouxe algo que considero precioso no desenvolvimento de uma criança e de um adolescente:

a percepção de que liberdade também vem acompanhada de responsabilidade.

Não era mais apenas “fazer um trabalho para a escola”.

Era administrar um projeto.

E, pouco a pouco, ela foi percebendo que algumas escolhas feitas hoje teriam consequências amanhã.

Se não pesquisasse, não teria conteúdo.

Se não organizasse os materiais, o experimento poderia ser prejudicado.

Se deixasse tudo para depois, o prazo chegaria.

Se não revisasse, alguma informação poderia ficar de fora.

São aprendizagens que não aparecem necessariamente em uma prova, mas que são fundamentais para a vida.

E então apareceu o perfeccionismo.

Se havia uma parte que mereciam capítulos à parte, eram o caderno e o cartaz.

Para ela, sempre havia alguma coisa que poderia ser melhorado e ter um caderno onde as falhas anteriores precisam deixar o rastro a vista de todos, a principio foi enlouquecedor. Não poder arrancar as páginas e recomeçar sem deixar vestígios da falha anterior foi algo que exigiu superação total com sua autocritica.

Um detalhe que poderia ser ajustado.

Uma informação que poderia estar mais organizada.

Uma parte que poderia ficar mais bonita.

O olhar perfeccionista encontrava problemas que talvez ninguém mais percebesse.

E foi preciso aprender algo muito difícil:

fazer bem feito não é a mesma coisa que fazer perfeito.

Existe um momento em que precisamos parar de aperfeiçoar e concluir.

Isso não significa abrir mão da qualidade.

Significa compreender que o perfeccionismo, quando impede a conclusão, deixa de ser uma busca saudável pela excelência e passa a ser um obstáculo.

Aprender a dizer “está bom, está completo, posso seguir” é uma habilidade importantíssima para a vida adulta.

Porque haverá trabalhos que precisarão ser entregues.

Decisões que precisarão ser tomadas.

Projetos que precisarão ser concluídos.

E nem sempre teremos a possibilidade de esperar até que tudo esteja exatamente como imaginamos.

Ela precisou aprender a olhar para aquilo que fez e reconhecer:

não está perfeito, mas está pronto.

E isso também é uma vitória.

Até que chegou o dia da apresentação

E talvez tenha sido aqui que eu tenha percebido com mais clareza o tamanho da conquista.

Porque a timidez estava ali.

Ela não desapareceu magicamente.

O medo não evaporou.

O nervosismo não deixou de existir.

Mas ela foi.

Ficou diante dos avaliadores.

Falou sobre o que havia pesquisado.

Explicou o que havia feito.

Respondeu a todos as perguntas.

Continuou.

E, naquele momento, eu percebi que coragem não é ausência de medo.

Coragem é não permitir que o medo escolha por nós.

Ela não precisou deixar de ser tímida para fazer uma apresentação.

Precisou descobrir que podia fazer algo mesmo sendo tímida.

Essa é uma diferença enorme.

Talvez muitas vezes nós, adultos, cometamos o erro de tentar eliminar aquilo que incomoda nossos filhos.

Queremos que eles deixem de sentir medo.

Que deixem de ser tímidos.

Que não fiquem frustrados.

Que não errem.

Que não se sintam inseguros.

Mas talvez nosso papel não seja construir uma vida em que eles nunca sintam essas coisas.

Talvez seja ajudá-los a desenvolver recursos para atravessá-las.

O que uma Feira de Ciências pode ensinar sobre a vida?

Muito mais do que eu imaginava.

Minha filha aprendeu ciência.

Mas também exercitou:

Persistência, quando quis desistir e continuou.

Flexibilidade, quando precisou abandonar a primeira ideia e começar novamente.

Tolerância à frustração, quando as coisas não aconteceram como havia planejado.

Planejamento, ao organizar as etapas do projeto.

Gestão do tempo, diante dos prazos.

Responsabilidade, ao compreender que cada etapa dependia de sua participação.

Autonomia, ao assumir progressivamente decisões sobre o próprio trabalho.

Resolução de problemas, diante dos imprevistos.

Pensamento crítico, ao analisar resultados e questionar o que havia acontecido.

Comunicação, ao transformar aquilo que pesquisou em uma explicação compreensível para outras pessoas.

Flexibilidade diante do perfeccionismo, ao compreender que nem tudo precisa estar perfeito para ser concluído.

Coragem, ao apresentar mesmo sentindo timidez.

São competências que não pertencem apenas à infância.

Elas serão necessárias na adolescência.

Na faculdade.

No trabalho.

Nos relacionamentos.

Na maternidade e na paternidade que talvez um dia exerçam.

Na vida.

E o que nós, pais, aprendemos?

Talvez essa seja a parte mais bonita.

Porque enquanto ela fazia o projeto, eu também estava aprendendo.

Aprendendo que nem sempre precisamos resolver.

Às vezes, precisamos apenas estar perto.

Aprendendo que incentivar não significa dizer “vai, você consegue” o tempo todo.

Às vezes significa dizer:

“Eu sei que está difícil.”

“Você quer parar ou precisa descansar?”

“Vamos pensar em outra possibilidade?”

“Você quer ajuda para organizar as ideias?”

“Você não precisa fazer perfeito.”

“Vamos olhar para o que já conseguiu fazer.”

Existe uma diferença enorme entre fazer pelo nosso filho e estar ao lado dele enquanto ele aprende a fazer.

E talvez uma das tarefas mais difíceis da parentalidade seja justamente essa:

saber quando ajudar e quando permitir que eles enfrentem a dificuldade.

Porque, se retiramos todos os obstáculos do caminho, podemos até tornar o percurso mais confortável.

Mas também podemos tirar deles a oportunidade de descobrir do que são capazes.

A conquista que não cabe em uma medalha.

No final, claro que existe alegria pelo resultado.

Existe orgulho do projeto.

Existe aquela vontade de guardar cada foto e cada lembrança.

Mas, olhando para tudo o que aconteceu, percebo que a maior conquista não está no resultado final.

Está no caminho.

Está naquela menina que quis desistir e continuou.

Na menina que precisou recomeçar e recomeçou.

Na menina que não conseguiu fazer tudo exatamente como imaginava e aprendeu a seguir mesmo assim.

Na menina que sentiu timidez e apresentou.

Na menina que descobriu que pode ser imperfeita e, ainda assim, capaz.

É isso que eu quero guardar.

Porque um dia talvez ela nem se lembre de todos os detalhes desse projeto.

Talvez nem se lembre de quanto tempo passou pesquisando ou de quantas vezes pensou em desistir.

Mas espero que permaneça dentro dela uma certeza:

“Eu já enfrentei algo que parecia difícil demais. E consegui.”

Essa memória pode ser muito mais importante do que qualquer prêmio.

Porque cada conquista deles também é nossa.

Existe uma frase que resume o que senti neste dia:

A conquista é deles. Mas a alegria também é nossa.

Não porque fizemos o trabalho por eles.

Não porque o resultado nos pertence.

Mas porque estivemos ali.

Acompanhando.

Apoiando.

Encorajando.

Acolhendo as frustrações.

Celebrando os pequenos avanços.

E aprendendo, junto com eles, a soltar aos poucos.

Talvez seja esse um dos grandes paradoxos da parentalidade:

queremos preparar nossos filhos para caminharem sozinhos, mas, para isso, precisamos primeiro aprender a caminhar ao lado deles.

Sem ocupar o lugar deles.

Sem fazer por eles aquilo que já podem fazer sozinhos.

Sem exigir que sejam perfeitos.

Sem transformar cada dificuldade em um problema que precisamos resolver.

Mas oferecendo presença suficiente para que possam experimentar uma coisa poderosa:

“Eu consigo.”

E foi isso que eu vi naquele dia.

Não apenas uma apresentação.

Não apenas um projeto de Ciências.

Eu vi minha filha descobrir um pouco mais sobre o mundo.

Mas, principalmente, descobrir um pouco mais sobre ela mesma.

E, como mãe, talvez essa seja uma das maiores conquistas que eu poderia testemunhar.

Minha filha venceu uma gigante chamada timidez.

Mas, no caminho, venceu outras gigantes também:

a vontade de desistir,

a frustração,

o medo de não dar conta,

a necessidade de fazer tudo perfeito,

e a dificuldade de recomeçar.

E eu espero que ela leve essas pequenas vitórias para todas as próximas etapas da vida.

Porque haverá outras gigantes.

E agora ela sabe uma coisa que talvez seja uma das mais importantes:

não é preciso ser maior que o medo para seguir em frente.

É preciso apenas não deixar que ele seja maior do que a nossa vontade de tentar.

Com carinho,
Fernanda Gracioli
Leve Aconchego

🌿“A maior conquista não é vencer o desafio, é descobrir que somos capazes de continuar diante dele.”

— Leve Aconchego

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6 respostas

  1. A Mel hoje me ensinou uma grande lição! Parabens, Mel! Continue! Não desista! Você é muito talentosa!!!!

  2. Fantástico!! Parabéns à família! Vocês inspiram e encorajam todos ao redor! Forte abraço!

  3. Muiiiito bom.
    Fez-me lembrar do livro que estou lendo: Seja Gentil com você “Por uma vida mais leve”

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